Saramaguiana
por José Saramago 26 Outubro 2026
Ex-libris da cervantina de Flávio Gouveia Osório, da Biblioteca Silva

Homenagem a Cervantes

Em 1964, José Saramago publico na edição #1429 da revista Seara Nova, um texto em que analisa o grande clássico de Miguel de Cervantes e também reflete sobre Fernando Pessoa e os seus heterónimos. A Blimunda recupera esta leitura que o autor de A Jangada de Pedra fez há mais de 60 anos.  

Todos sabemos como a história começa: naquele lugar de La Mancha, cujo nome nunca viremos a conhecer, vivia um fidalgo pobre chamado Alonso Quijano que, um dia, em consequência do muito ler e do muito imaginar, passou do juízo à loucura, tão naturalmente como quem abriu uma porta e a tornou a fechar. Assim o quis Cervantes, talvez porque a mentalidade do seu tempo se recusasse a aceitar que um homem na plena posse das suas faculdades mentais, e sendo embora apenas uma personagem de romance, decidisse, por um simples ato de vontade, deixar de ser quem tinha sido para converter-se em outro: graças à loucura, a rejeição das regras do chamado comportamento racional torna-se pacífica, uma vez que permite desprezar qualquer aproximação ao louco que não proceda em conformidade com as vias redutoras que têm a cura como objetivo…

Ex-libris da cervantina de Flávio Gouveia Osório, da Biblioteca Silva

Do ponto de vista dos contemporâneos de Cervantes e das personagens do romance, Quijote é louco porque Quijano enlouqueceu. Em momento algum se insinua a suspeita de ser Quijote, tão-somente, ou, pelo contrário, de modo supremo, o outro de Quijano. Não obstante, Cervantes tem uma visão muito precisa da irredutibilidade das consequências da mudança de Quijano. Tanto assim que reforma e reorganiza, de alto a baixo, o mundo em que vai entrar essa nova identidade que é Quijote, mudando os nomes e as qualidades de todos os seres e coisas: a estalagem torna-se castelo, os moinhos são gigantes, os rebanhos exércitos, Aldonza transforma-se em Dulcineia, para não falar de uma mísera cavalgadura promovida a épico Rocinante e de uma bacia de barbeiro alçada à dignidade de elmo de Mambrino. Já Sancho, tendo embora de viver e sofrer as aventuras e as imaginações de Quijote, não precisará nunca de enlouquecer nem de mudar de nome: mesmo quando o proclamarem governador de Barataria continuará a ser, no físico e no moral, mas sobretudo na sólida identidade que sempre o definiu, Sancho Panza. Nada mais, mas também nada menos.

Ex-libris da cervantina de Flávio Gouveia Osório, da Biblioteca Silva

Que nos disse Cervantes da vida de Alonso Quijano antes que a suposta loucura tivesse transformado o mal favorecido homem, que o era tanto de figura como de fortuna, nesse ardoroso e infatigável cavaleiro a quem as derrotas nunca diminuirão o ânimo, antes parecerá encontrar nelas o alento para o combate seguinte, infinitamente perdido e infinitamente recomeçado? Cervantes, dessa vida enigmática, nada nos quis dizer. E, contudo, Alonso Quijano frisava já os cinquenta anos de idade quando Cervantes o plantou inteiro na primeira página do Quijote. Mesmo numa aldeia perdida de La Mancha, tão perdida que nem o seu nome se achou, um homem de cinquenta anos teve, por força, uma vida, acidentes, encontros, sentimentos vários. Seus pais, quem foram? De que irmão ou irmão lhe veio a sobrinha? Não teve Alonso Quijano filhos, um varão, por exemplo, que por não ter nascido à sombra do santo sacramento do matrimónio foi deixado ao deus-dará? E a mãe desse filho, quem teria sido? Uma moça de aldeia, barregã por uns tempos, ou apenas tomada de ocasião em tarde de calor, no meio da seara ou atrás de um valado? Conhecemos tudo da vida de Don Quijote de La Mancha, porém nada sabemos da vida de Alonso Quijano, no entanto o mesmo homem, primeiro dotado de razão, depois deixado por ela, senão, como me parece hipótese muito mais sedutora, deixada ela por ele, conscientemente, para que Alonso Quijano pudesse, sob a capa de uma loucura que passaria a justificar tanto o sublime como o ridículo, ser enfim outro, para como outro poder viver em outros lugares e fazer da labrega Aldonza (quem sabe se antes mãe de filhos que não foram reconhecidos?) uma puríssima e inalcançável Dulcineia, mudando assim, como por uma operação alquímica, o chumbo cinzento em ouro resplandecente.

Ex-libris da cervantina de Flávio Gouveia Osório, da Biblioteca Silva

É neste ponto, segundo entendo, que nos encontramos perante a questão crucial. Se Alonso Quijano foi o mero invólucro físico de um delírio mental produzido pelo muito ler e pelo muito imaginar, então não haveria grandes diferenças entre ele e aqueles outros loucos que, dois ou três séculos mais tarde, se tomaram por Napoleão Bonaparte só porque dele ouviram falar ou acerca dele leram, como capitão, general e imperador. Ora, quanto a mim, prefiro acreditar que em um dia da sua insignificante vida Alonso Quijano decidiu ser outra pessoa, e, tendo, por isso mesmo, que colocar-se contra o seu tempo, em que só a pessoa Quijano poderia ter lugar, optou por fazer aquilo que ninguém já ousaria: restabelecer a ordem da cavalaria andante, pondo ao seu serviço, por inteiro, a alma e o corpo. Se falasse francês, Alonso Quijano poderia ter antecipado, naquele seu momento fundador, o dito célebre de Rimbaud: La vraie vie est ailleurs. Pelo menos, podemos imaginar que, ao deixar a tranquilidade e a segurança da casa, grotescamente armado, montado na esquelética cavalgadura, poderia ter proferido, no seu manchego castelhano, estas palavras, postas aqui também na língua de Rimbaud para conservar o paralelismo, e que seriam, ao mesmo tempo, uma divisa e um programa: Le vrai moi est ailleurs. E foi assim que começou a caminhar, já outro, e portanto à procura de si mesmo.

Ex-libris da cervantina de Flávio Gouveia Osório, da Biblioteca Silva

Este jogo entre um eu (Quijano) que se torna em um outro (Quijote), ponto forte, se me atrevo a dizê-lo, desta minha interpretação, encontra uma simetria recente no conhecido sistema de espelhos, cientemente organizado por Fernando Pessoa, que é a constelação heteronímica. Sendo os tempos diferentes, Pessoa não necessitou de enlouquecer para se tornar nesses outros Napoleões que são o Álvaro de Campos da Tabacaria, o Alberto Caeiro do Guardador de Rebanhos, o Ricardo Reis das Odes, ou o Bernardo Soares do Livro do Desassossego. Curiosamente, porém (tanto pode, afinal, a suspeita social que pesa sobre aqueles que, de maneira direta ou indireta, aspiraram a retirar-se da humana convivência), o próprio Fernando Pessoa, para dar do seu caso uma explicação que não relevasse da simples e radical vontade de ser outro (ou, mais complexamente, da necessidade imperiosa de não ser quem era), diagnosticou-se a si mesmo como histero-neurasténico, por este processo transitando, com perturbador à-vontade, das auras poéticas ao foro da psiquiatria. Isso lhe servirá para explicar os seus heterónimos, atribuindo-se a si mesmo uma “tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação”. Falar de “despersonalização”, neste caso, não parece extremamente rigoroso, quando, pelo contrário, vamos ser testemunhas, não de uma despersonalização – situação, suponho, em que o poeta, tendo deixado de ser quem era, passaria a interrogar-se sobre o que teria sido antes –, mas de uma multipersonalização sucessiva, em que o poeta, no mesmo instante em que deixou de ser ele próprio, assiste à ocupação do vazio por uma nova identidade poética, tornando portanto a ser alguém, na medida em que pôde tornar-se outro).

Ex-libris da cervantina de Flávio Gouveia Osório, da Biblioteca Silva

É interessante observar, repito, como Pessoa nos quer fazer crer na “origem orgânica” dos seus heterónimos, em total e flagrante contradição com a descrição que faz do “nascimento” deles, que mais parece corresponder a uma sequência de lances de um jogo no interior de outro jogo, como caixas chinesas saindo de caixas chinesas: “lembrei-me de inventar um poeta bucólico”, “aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir uns discípulos”, “arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente”, “de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo (Álvaro de Campos)… É de supor que o aparecimento dos outros heterónimos, ou semi-heterónimos, que foram António Mora, Vicente Guedes ou Bernardo Soares, tenha percorrido caminhos mentais similares e modos de elaboração e definição paralelos. Para fazer um Quijote, Cervantes tinha de levar Quijano à loucura, ao passo que Fernando Pessoa, que já levava dentro de si a tentação de mil vidas diferentes, e que já era, de alguma maneira, personagem de si mesmo, não podendo enlouquecer deveras, e tornar-se, nessa loucura, outro, criou para uso seu e mistificação alheia uma fingida histero-neurastenia, ao abrigo da qual se poderia permitir quantas multiplicações o seu espírito fosse capaz de suportar. Parece claro, pois, que a ironia pessoana se vai exercer em duas direções distintas: a do leitor, obrigado pelo poder cumpulsivo de uma expressão artística invulgar a tomar a sério o que é pura mistificação, e o próprio Pessoa, agente e objeto conscientes dessa mesma mistificação.

Ex-libris da cervantina de Flávio Gouveia Osório, da Biblioteca Silva

Ou me engano muito, ou não é esse o caso de Cervantes. É verdade que ele, com frieza e indiferença aparentes, parecer querer expor, primeiro Quijano e depois Quijote, à irrisão familiar e pública, mas esse homem uno e duplo, Janos bifronte, cabeça de duas caras, de quem o leitor se irá rir mil vezes, também será capaz mil vezes de fazer despertar no nosso espírito os mais subtis sentimentos de solidariedade e compaixão, e, como se tal fosse pouco, criar em nós um desejo profundo e irresistível de identificação com alguém – personagem incorpórea de romance, criatura feita de tinta e papel – em verdade desprovido de tudo, menos de ansiedade e de sonho. Ainda que não o queira confessar, todo o leitor, no segredo do seu coração, desejaria ser Don Quijote. Talvez pelo facto de ele não ter consciência do seu ridículo, e nós vivermos sujeitos a ele em todas as horas lúcidas, mas sobretudo, creio, porque na aventura risível do Cavaleiro da Triste Figura está presente, sempre, o sentimento mais dramaticamente interiorizado e mascarado da existência humana: o da sua finitude. Sabemos de antemão que nenhuma das aventuras de Quijote será mortal ou sequer realmente perigosa, que, pelo contrário, cada uma delas será motivo de novas gargalhadas, mas, em contradição com essa tranquilizadora certeza, que resulta do pacto estabelecido pelo Autor desde as primeiras páginas, percebemos que, afinal, Quijote se encontra, a cada passo que dá, em risco permanente, como se, em vez de ter sido ali posto por Cervantes para meter a ridículo os romances de cavalaria, fosse a representação premonitória do homem moderno, sem toga nem coturnos, armado de uma razão desfalecente, incapaz de chegar ao outro por não poder conhecer-se a si mesmo, dividido tragicamente entre ser e querer ser, entre ser e ter sido.

Porém, essa razão a que chamei desfalecente, como um fio que constantemente se parte e cujas pontas dilaceradas constantemente vamos tentando remendar, é o único vade mecum possível, quer para Quijote, quer para esse outro Sancho/Quijote que é o leitor. Razão de regras instáveis, por certo, mas razão trabalhando em estado de plenitude, ou razão de loucura, se aceitarmos o jogo de Cervantes, mas, num caso como noutro, razão ordenadora, capaz de sobrepor leis novas ao universo das leis velhas apenas por meio de uma introdução sistemática de contrários. Pessoa dispersou-se noutros, e nessa dispersão, porventura, se reencontrou. Quijano substituiu-se a si mesmo por outro enquanto a morte não chegava para fazer voltar tudo ao princípio, ao primeiro enigma e à primeira tentação: ser alguém que não seja eu, estar num lugar que não seja este.