por Elton Uliana
21 Setembro 2026

Um homem olhando
Quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos certeza temos do que fazer com nosso conhecimento. Quanto mais aperfeiçoamos os meios de ver, avaliar e reconhecer o que está diante de nós, menos evidente se torna que saibamos realmente enxergar. E quanto mais complexas são as estruturas que construímos para tornar a vida comum possível, mais inquietante é imaginar o pouco que talvez seja necessário para arruiná-las.
Saramago desconfiava profundamente dessa distância entre aquilo de que o ser humano é capaz e aquilo que faz com as suas capacidades. Em Ensaio sobre a Cegueira, deu a essa desconfiança uma forma escandalosamente simples: uma cidade inteira perde a visão. Foi um amigo, aliás, quem me levou pela primeira vez a aproximar o Ensaio de um romance aparentemente distante do universo de Saramago. Eu lhe falava com fervor do livro quando ele interrompeu, sem hesitar: The Day of the Triffids. Publicado em 1951 e traduzido em Portugal como O Dia das Trífides por José Manuel Calafate, para a coleção Argonauta, n.º 71, da Livros do Brasil, em 1962, o livro de John Wyndham começa com um ato de obliteração assustadoramente semelhante, quando quase toda uma população perde a visão de uma só vez, deixando apenas poucas pessoas capazes de enxergar num mundo cujas rotinas, instituições e certezas se tornam, com o desenrolar do evento, subitamente inúteis. A ausência de uma ligação demonstrável entre as duas obras talvez torne a comparação ainda mais interessante. Há vários momentos em Triffids que parecem antecipar questões que Saramago radicalizaria de maneira bastante pontiaguda quarenta e quatro anos depois no Ensaio. Nos dois romances, a perda da visão, além de atingir os olhos, altera profundamente as relações entre os indivíduos, redistribui a autoridade de maneiras imprevisíveis e expõe a fragilidade das instituições, inclusive quando estas procuram afirmar sua força pela coerção, obrigando as personagens, e também nós, leitores, a reconsiderar a sossegada segurança daquilo que uma sociedade toma por natural e permanente. Aos poucos, porém, a semelhança começa a se desfazer. Wyndham se interessa nas potenciais consequências do que acontece a uma civilização quando deixa subitamente de enxergar. Saramago irá mais longe, perguntando se essa civilização alguma vez enxergou de fato.
O romance de “fantasia lógica” de Wyndham, como ele próprio preferia chamar esse tipo de ficção, começa com uma ironia estranha e seca, e bastante intrigante. Bill Masen acorda num hospital com os olhos cobertos por bandagens e percebe que alguma coisa está errada antes mesmo de poder ver o que aconteceu. Apenas um silêncio o alerta, pois faltam os sons que deveriam compor aquela manhã: o hospital não desperta, a rua lá fora não recupera o seu ruído habitual e ninguém aparece para trocar os curativos. Antes mesmo que a catástrofe tenha uma imagem, ela se torna para a personagem, uma ausência. Bill havia sido atingido nos olhos pelo veneno de uma das triffids com as quais trabalhava e passara mais de uma semana no hospital, com os olhos e boa parte da cabeça cobertos por bandagens, enquanto os médicos esperavam para saber se sua visão seria recuperada. Na noite em que quase toda a população sai para observar um fenômeno luminoso extraordinário no céu, Bill simplesmente não pode testemunha-lo. É isso que o salva. Wyndham deixa claro desde o início que sua sobrevivência depende do puro acaso, o acidente que ameaçara sua visão acaba preservando-a.
A partir daí, Wyndham examina com minúcia sistemática o que significa, para uma cidade, perder a faculdade em torno da qual ela se organizara por inteiro. Já no primeiro dia, Bill encontra uma Londres onde muitos dos recém-cegos, incapazes de se orientar num mundo construído em torno da visão, procuram desesperadamente alimento, saqueiam lojas ou simplesmente desistem de viver. No fim do romance, a sobrevivência passa pelo recuo para a Isle of Wight, onde uma comunidade menor conseguiu criar condições de defesa contra as triffids. O colapso leva Wyndham a imaginar também formas de reorganização social, diferentes maneiras de começar de novo e de decidir quem poderá fazer parte desse novo mundo. É nesse ponto que a semelhança com Saramago começa a revelar seus limites. Também no Ensaio a ordem social se desfaz e pequenas formas de comunidade precisam ser reconstruídas, mas Saramago se detém sobretudo no que a ruptura faz aparecer entre as pessoas, novas formas de cuidado e dependência, vergonha e violência, solidariedade e poder. Se em Wyndham, a cegueira expõe quanto do poder humano dependia de uma vantagem perceptiva que mal sabíamos possuir; em Saramago, ela irá revelar algo mais desconcertante: quão pouco a capacidade de ver nos havia ensinado a enxergar os outros.

E aqui talvez me seja permitida uma pequena digressão, porque alguns livros acabam se misturando de tal maneira à nossa vida de leitor que já não sabemos muito bem onde termina a história de uma obra e começa a história das pessoas com quem a lemos. Anos atrás, depois de uma palestra de Terry Eagleton na Universidade de Lancaster, onde é professor emérito, disse-lhe, sorrindo, que tinha um bone to pick with him. Eu o lia havia tantos anos, praticamente livro por livro, que comecei a achar curioso encontrar em suas páginas Kafka e Flaubert, Dostoiévski e Cervantes, Borges e tantos outros, e nunca Saramago. Ele recebeu a provocação com a maior graça e me contou que já ouvira muito falar de Ensaio sobre a Cegueira, embora, para seu próprio constrangimento, nunca tivesse chegado a ler Saramago. Saí do evento e corri para a Waterstones da cidade à procura justamente do Ensaio, e como não havia nenhum exemplar disponível, escolhi alguns outros livros de Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis e As intermitências da morte incluídos, e voltei para entregá-los a Eagleton, que recebeu o gesto com uma gentileza que me deixou ainda mais contente de tê-lo feito. De volta a Londres, adquiri finalmente um exemplar do Ensaio e o enviei para Lancaster. Dias depois, chegou pelo correio uma nota escrita à mão em papel timbrado da universidade onde Eagleton agradecia os livros, desejando-me sorte com meu trabalho e acrescentando, com seu humor característico, a brincadeira do “best agent Saramago ever had”. Guardo a carta até hoje com o maior carinho. A frase naturalmente me encheu de alegria, mas o que me comoveu mais foi imaginar alguém do calibre dele, com aquela vida intelectual prolífica, aquela quantidade de trabalho e compromissos inesgotáveis, sentando-se para escrever à mão a uma pessoa que conhecia apenas de alguns encontros. Há realmente formas muito simples de generosidade.
Para minha surpresa, pouco tempo depois daquele encontro, acabei me deparando com Saramago justamente nas páginas do então novo livro de Eagleton, Hope Without Optimism (2015). Numa passagem dedicada às expectativas que o romance contemporâneo criou em torno de seus finais, Eagleton se detém brevemente no desfecho do Ensaio, quando a visão começa a retornar tão inexplicavelmente quanto havia desaparecido, e o chama de “joyfully transformative”. Depois de tanto sofrimento, a restituição da visão parece demasiadamente afirmativa para leitores acostumados à gravidade dos finais contemporâneos. Eagleton, naturalmente, não resiste à piada: é uma mudança de registro tão inesperada quanto terminar Pride and Prejudice de Jane Austin com o massacre das irmãs Bennet. Mais interessante ainda é que Saramago reaparece algumas páginas depois no mesmo livro, desta vez O Ano da Morte de Ricardo Reis, onde Eagleton distingue otimismo de esperança, sugerindo que o otimista conta, de algum modo, com um final feliz; quem espera não tem essa garantia. É ali que o teórico inglês encontra uma esperança que sobrevive mesmo sem nenhum objeto concreto ao qual se agarrar, e talvez por isso se possa conviver com a tragédia sem descambar em pessimismo. E essa segunda passagem ajuda também a entender melhor o que ele havia reconhecido pouco antes no final do Ensaio. Quando, na época, publiquei no Facebook a passagem sobre o Ensaio do livro de Eagleton, o formidável estudioso da obra saramagueana David Frier observou cordialmente na postagem que havia algo a acrescentar àquela leitura. Ele observou que, sim, as personagens recuperam a visão no final, mas abrem os olhos para um mundo completamente devastado, encontrando-se sozinhos diante da tarefa desmedida de reconstruí-lo pedaço por pedaço. Aos poucos, passei a pensar que sua observação tornava a leitura de Eagleton ainda mais consequente, pois se a esperança é capaz de persistir quando já não há promessa de restituição, recuperar a visão depois de um desastre que destruiu muito mais do que a ordem material do mundo que conheciam talvez seja uma imagem ainda mais incisiva dela.
Frier já era, para mim, muito mais do que o autor daquele comentário. Seu livro The Novels of José Saramago: Echoes from the Past, Pathways into the Future tinha sido uma das minhas companhias constantes quando escrevi minha dissertação sobre Caim, parte da qual acabaria sendo publicada aqui mesmo nas páginas da Blimunda. O livro de Frier, lançado em 2007, foi um dos primeiros estudos de fôlego em inglês dedicados à ficção de Saramago e continua impressionando pela maneira maestral como discute a dimensão ideológica dos romances, a tradição literária portuguesa e aquilo que neles excede o contexto português para interrogar a condição humana. Só mais tarde descobri que Frier também havia escrito um ensaio chamado “Kant You See? Fictions of Blindness in Saramago and H. G. Wells”. Portanto, Wells já nos esperava naquela conversa que começara para mim por acaso com Wyndham.

Wells, aliás, já estava à espera dentro do próprio Wyndham. Em The Day of the Triffids, Bill recorda o velho provérbio segundo o qual, no país dos cegos, quem tem um olho é rei. Josella Playton, a jovem escritora que se torna sua companheira e que também conservou a visão, lembra imediatamente de The Country of the Blind, de H. G. Wells, e do modo como o conto já havia colocado essa certeza em dúvida. Publicado originalmente em 1904, o texto sairia em Portugal em 1955 como A Terra dos Cegos, numa antologia de Wells selecionada, traduzida e prefaciada por Victor Palla para a Editora Atlântida, de Coimbra. Temos, portanto, um conto dentro do romance, e a referência é explícita: Bill reconhece que Wells imaginara uma sociedade já adaptada à cegueira, justamente o que não seria possível acontecer naquele mundo recém-colapsado. No conto de Wells, o montanhista Nuñez cai num vale isolado onde a cegueira se tornou, ao longo de gerações, a condição comum. Convencido de que a visão lhe daria autoridade, descobre o contrário, que naquela cultura, a vida se organizou sem depender dos olhos, e é ele quem parece desajustado, talvez até doente. O resultado é que o que Nuñez toma por superioridade biológica não possui valor automático nenhum naquele mundo. Wells percebera, muito antes de dispormos do vocabulário contemporâneo da deficiência, que aquilo que chamamos de normalidade depende também do ambiente que construímos para determinados corpos. Wyndham retoma a ideia e altera drasticamente as condições: seus cegos acordam de uma noite para outra dentro de uma civilização inteiramente organizada para quem vê.
Há ainda uma inquietação delicada que uma leitura contemporânea dificilmente pode ignorar. Georgina Kleege (2010) e David Bolt (2005), entre outros estudiosos da deficiência, chamaram atenção para a longa tradição cultural que transforma a cegueira em figura da ignorância, da impotência ou da falha moral. Bolt fala de uma cultura profundamente ocularcêntrica, em que a visão funciona como medida tácita da normalidade. A força da metáfora de Saramago retira parte de sua potência dessa tradição e, por isso mesmo, pode acabar enredada na equivalência entre cegueira física e falha moral que a torna possível. Seria injusto, porém, deixar a questão aí. O próprio romance torna essa equivalência menos estável do que parece. A mulher do médico, única personagem que continua a ver, descobre que a visão não lhe confere clareza moral nem entendimento instantâneo; ao contrário, transforma-se em peso, responsabilidade e, com frequência, impotência. O romance que faz da cegueira sua grande alegoria acaba, em alguns de seus momentos mais fortes, desconfiando também da soberania dos olhos. Não sei o que Saramago faria dessas objeções hoje, mas gostaria de imaginar, porém, que um escritor tão empenhado em desconfiar das convicções do seu próprio tempo não esperaria que suas metáforas fossem poupadas do mesmo escrutínio. Assim, Wells começa por abalar a crença na visão como forma de superioridade, enquanto Wyndham imagina o que resta quando uma sociedade construída exclusivamente para quem vê perde essa vantagem; já Saramago conduz a questão para um terreno mais inquietante, onde apenas ter olhos abeis já não basta para dizer que se enxerga.
Há uma última imagem de Ensaio sobre a Cegueira que me comove particularmente, embora ela não pertença propriamente ao romance. Em maio de 2008, pouco depois de Blindness, de Fernando Meirelles, abrir o Festival de Cannes, Saramago assistiu ao filme numa sessão privada em Lisboa. Nas imagens de Quico Meirelles, filho do diretor, que filmou discretamente o momento, encontramos, quando as luzes se acendem, um Saramago visivelmente tomado por lágrimas de emoção ao ver seu texto adaptado tão belamente para o cinema. Fernando Meirelles, que passara a sessão convencido de que o escritor detestaria a adaptação, espera apreensivo no auditório. Ternamente, Saramago lhe diz que estava tão feliz por ter visto o filme quanto estivera no dia em que terminou de escrever o livro. Meirelles se inclina e o beija na cabeça.
A cena sempre foi marcante para mim, e imagino que também para muitos dos que admiram Saramago, mas agora me parece ainda mais comovente. Depois de tantas páginas sobre aquilo que vemos, deixamos de ver ou aprendemos tarde demais a reconhecer, ela devolve a visão a uma escala humildemente humana. Um escritor olha para uma obra que já não lhe pertence inteiramente, reconhece nela alguma coisa daquilo que imaginou e se comove profundamente. Depois de Wells, Wyndham, Eagleton, Frier e de todas as maneiras pelas quais fomos tentando compreender a cegueira de Saramago, talvez a melhor maneira de terminar seja simplesmente devolver a última palavra a um homem olhando. “A história acabou, não haverá nada mais que contar.”
Nota bibliográfica
Curiosamente, os dois autores, Wyndham e Wells voltariam a se encontrar em português através de Braulio Tavares, conhecido de longa data e tradutor de ambos: The Country of the Blind integra a coletânea O País dos Cegos e outras histórias (Alfaguara, 2014), com seleção, tradução e prefácio seus; e The Day of the Triffids apareceu recentemente como O dia das trífides (Aleph, 2026), também em sua tradução. Em Portugal, o conto de Wells foi publicado ainda como Em terra de cegos, em tradução e adaptação de Philipe Pharo da Costa (ContraatircsE / Livro de Bolso, 2022).
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Elton Uliana é tradutor e crítico literário brasileiro radicado em Londres, coeditor do Brazilian Translation Club da University College London (UCL), onde colabora em programas de Estudos da Tradução. Publicou traduções e crítica literária em revistas como The Massachusetts Review, Asymptote, Latin American Literature Today, Rascunho e Blimunda, entre outras. Em 2026, recebeu, com Amanda Sarasien, o Jules Chametzky Translation Prize, da The Massachusetts Review, pela tradução para o inglês de “A mulher que sonhava” (“The Woman Who Dreamed”), de José Luís Peixoto.