
Um culpado quase perfeito
Robin Stevens
Nuvem de letras
Tradução de Dulce Afonso
O primeiro volume da coleção Mistério Juvenil apresenta as detetives Daisy Wells e Hazel Wong, duas alunas do colégio interno Deepdean. Ao jeito dos clássicos policiais, designadamente os de Agatha Christie, a narrativa começa com um crime, que as duas amigas investigam exaustivamente, até à grande revelação final.
Ambientado na Inglaterra dos anos 1930, este universo talvez beba tanto da estrutura policial do estabelecimento de hipóteses e da recolha de pistas quanto da herança de Enid Blyton, sobretudo das séries das Gémeas e do Colégio das Quatro Torres. Os conflitos entre amigas, os acontecimentos nas aulas e nas camaratas e até as relações sociais estão igualmente próximas daquelas que Blyton descrevia nos seus livros, embora, neste caso, o foco seja sempre o comportamento dos suspeitos. Também é notória uma maior exigência de leitura, pela dimensão do livro e pela quantidade de informações que é necessário reter e ir relacionando, a par do que acontece com as protagonistas.
Hazel é a narradora, menos criativa e afoita que Daisy. Quando acontece o crime, as duas já tinham criado a Sociedade de Detetives Wells & Wong. Não é, por isso, o assassinato que as leva a querer resolver o mistério mas é a sua curiosidade e o desejo de serem detetives que as faz assumirem aquela como a sua grande oportunidade. Nesta sociedade secreta, onde apenas elas têm assento, inspiram-se em Sherlock Holmes e Dr. Watson, vestindo a sua pele. À medida que a investigação decorre, Hazel vai manifestando algumas discordâncias e até desagrado em relação a algum egocentrismo de Daisy, o que torna a narrativa mais interessante por não se centrar apenas no crime e também nas relações que existem entre as personagens daquele espaço fechado. No início, Hazel encontra a professora Bell, sem vida, no chão do ginásio da escola. Em pânico, vai ter com a amiga a quem conta o que viu. Quando regressam ao ginásio, já acompanhadas, o corpo tinha desaparecido. Não partilham com ninguém o que Hazel testemunhou e lançam-se numa investigação em que os primeiros suspeitos são alguns professores, presentes no local. Tudo é explicitado através de raciocínios dedutivos a partir das informações que vão recolhendo. O leitor começa, assim, a seguir a lógica apresentada e vai, aqui e ali, tecendo as suas próprias questões e suposições. A certa altura, as duas amigas entram em conflito por formularem hipóteses distintas: para Hazel há uma nova suspeita, para Daisy essa professora nunca perpetraria tamanha barbaridade. As emoções misturam-se com a objetividade, o que favorece o mistério e os reposicionamentos do leitor ao longo da narrativa. A estrutura é maioritariamente causal e sequencial, com alguns episódios passados que a narradora intercala, e que dão a conhecer melhor as personagens. A progressão assenta em acontecimentos e informações mas não há muitos momentos de tensão, suspense ou perigo. Também nesse sentido, esta coleção segue a tradição mais clássica do policial. Para pré-adolescentes leitores, pode ser uma boa opção depois de Enid Blyton e antes de Agatha Christie.