Destaque Sara Figueiredo Costa 31 Agosto 2026

Dar forma ao coração do mundo

No Museu do Barro, no Redondo, mostra-se uma tradição que é local, mas cujas raízes se estendem desde há milénios e se cruzam com outras geografias e usos desta matéria-prima versátil, disponível e fundamental que é o barro.

As mais antigas formas cerâmicas que se conhecem remontam a cerca de 20 mil anos, ainda antes da sedentarização que deu origem às primeiras comunidades humanas geograficamente estáveis, associadas à agricultura. Até ao início deste século, pensava-se que só com a sedentarização as pessoas tinham começado a moldar o barro para produzirem recipientes, mas descobertas feitas em diferentes locais – Rússia, China, Leste da Ásia – ao longo dos últimos anos vieram confirmar que alguns pedaços de cerâmica encontrados em grutas e outros locais escavados por equipas de arqueologia eram, afinal, anteriores. O barro e a sua moldagem terão, então, acompanhado os seres humanos mesmo na fase em que eram nómadas.

Se não é possível indicar com precisão cronológica quando se moldou o primeiro recipiente em barro, nem saber como, onde e quando terá ocorrido a descoberta de que a terra argilosa permitia a moldagem de recipientes e outras formas, traçar uma história da olaria a partir dos vestígios que o barro foi deixando é tarefa que vem sendo assumida por diferentes profissionais, da Arqueologia à História, passando pela Antropologia. No espaço que hoje é território português, sabe-se que pelo menos desde o Neolítico que o barro era usado para a criação de recipientes e outros objectos e conhece-se com detalhes crescentes à medida que a cronologia avança a importância deste material no quotidiano das comunidades.

Os barros do Redondo

No Museu do Barro do Redondo, o barro é mostrado a quem o visita a partir desta contextualização histórica, mas à leitura cronológica acrescentam-se várias outras que ajudam a perceber a centralidade desta matéria-prima na vida quotidiana, na cultura e nas tradições desta zona do Alentejo.

Logo depois da introdução histórica, o percurso proposto aos visitantes foca-se, precisamente, no quotidiano, mostrando que aquilo que visitantes e turistas podem comprar numa das olarias locais, ou nalguma loja de artesanato, para levarem consigo uma lembrança do Redondo é, por aqui, uma presença banal na mesa, na cozinha, nas paredes e, em tempos mais remotos, noutras áreas da casa.

No espaço museológico vão-se sucedendo paredes e vitrines povoadas de pratos, alguns destinados à comida, outros com função decorativa (e, às vezes, comemorativa, com os elementos da decoração assinalando um casamento, um nascimento ou outro momento relevante de uma vida). Há também potes, panelas, copos, cântaros, bilhas e toda a sorte de recipientes, inclusive aqueles que não se destinam à cozinha ou à alimentação, como penicos ou arrastadeiras. Percebe-se, neste percurso, que o barro foi, de facto, matéria-prima de uma parte muito considerável dos utensílios do dia a dia,  e que ainda hoje essa importância se mantém, mesmo que cingida, sobretudo, à cozinha, à mesa e à decoração.

Os processos de fabrico das peças de cerâmica estão bem documentados neste Museu do Barro, separando a modelagem e a cozedura, fundamentais em qualquer trabalho de olaria, dos acabamentos e da decoração, essenciais na demarcação de tradições oleiras e figurativas. Os barros do Redondo não são iguais aos de São Pedro do Corval ou de Viana do Alentejo, só para citar outros dois centros oleiros alentejanos (cuja história e características vale igualmente a pena conhecer). Aqui, no espaço museológico, os visitantes ficam a conhecer diferentes técnicas de engobe e pintura de peças, com os passos de cada processo devidamente ilustrados em vitrines que mostram os materiais utilizados, os pigmentos, as ferramentas do ofício, mas também alguns trabalhos de autoria reconhecida, como é o caso de Isabel Pires Branco, que começou a pintar peças na oficina do pai e desenvolveu um trabalho extenso e coerente, cujo reconhecimento perdura na produção oleira do Redondo.

Também a impermeabilização, usando o pez, se mostra de forma clara neste museu, confirmando a vertente utilitária dos barros produzidos no Redondo e a necessidade, que foi sendo colmatada ao longo de séculos de tradição e passagem de conhecimento às gerações mais novas, de encontrar técnicas que respondessem aos usos a que cada peça respondia. Essa resposta estende-se a outros usos do barro, igualmente documentados no museu, nomeadamente o da sua aplicação na construção tradicional, com tijolos e telhas a serem fabricados em série muito antes da industrialização e da mecanização dos processos fabris.

A tradição cumpre-se todos os dias

A importância de ter um museu vivo e dinâmico constata-se não apenas no espaço expositivo, na disposição das peças e nos textos explicativos que as acompanham, mas também nos programas de formação para públicos de diferentes idades que o município do Redondo vem desenvolvendo a partir do barro. Entre oficinas escolares para os diferentes graus de ensino e outras que acolhem adultos com ou sem contacto prévio com a prática oleira, no Redondo é possível pôr as mãos na massa e dar continuidade a uma tradição longuíssima que é também um dos traços mais relevantes e expressivos da identidade desta zona do Alentejo.

Circulando pelas ruas do Redondo, entrando nos cafés, nos restaurantes, nas tabernas, percebe-se que a louça produzida localmente não é apenas um elemento turístico. As oficinas oleiras ainda em funcionamento confirmam isso mesmo e vale a pena entrar em qualquer uma delas para observar a roda em funcionamento, as mãos do oleiro dando forma ao barro (é quase sempre um homem, aqui), o delicadíssimo trabalho de pintura feito quase sempre pelas mulheres e a certeza de que nada disto é uma coisa parada no tempo. Os pratos, as tigelas, os alguidares que saem destas oficinas continuam a circular pelas feiras, agora já não transportados por burros, como se mostra no museu, mas ainda assim vendidos e revendidos pelos descendentes desses almocreves que levavam a imprescindível louça a todas as vilas e aldeias. Umas vezes, o destino destes pratos será a parede, assumindo a sua função decorativa, outras, será a cozinha e a mesa. E não é preciso que nenhuma das duas se situe no Alentejo: o barro sempre encontrou lugar entre a bancada e a mesa e não há tabuleiro de inox ou serviço de baquelite que o substitua.