Espelho Meu Andreia Brites 28 Agosto 2026

A minha irmã é uma diplodoco
Aurore Petit
Orfeu Negro
Tradução de Joana Cabral

Este é um dos quatro álbuns que a autora dedica ao tema do nascimento e das relações afetivas na família durante a primeira infância. A minha irmã é uma diplodoco, tal como o título indica, adopta a perspetiva do irmão mais velho, que recebe a irmã em casa.
Aurore Petit explora com humor a estranheza, a curiosidade, a frustração e a consciência da criança, através do seu relato e dos acontecimentos que as ilustrações contam. Ao contrário de outras narrativas sobre o tema, aqui não se encontram personagens planas nem evoluções constantes desde o ciúme ao amor fraternal. 
Todo o álbum é perpassado por momentos quotidianos, em que muitos, adultos e crianças, se reconhecerão. Do entusiasmo em mostrar a casa à mana às tentativas desastradas de aproximação, do ataque de raiva à exploração das mãos e do rosto da bebé, todos estes momentos são quadros da adaptação deste irmão, também ele pequeno, a uma mudança radical no seu lugar mais seguro.


O papel dos pais é decisivo. Em alguns momentos são apenas agentes facilitadores, promovendo a troca de presentes à chegada e a visita guiada em seguida. Mas também reagem, quando é necessário proteger a recém-nascida de qualquer acidente. E a palavra ‘não’ assume o lugar da proibição, da injustiça. Por isso é devolvida pelo menino à mãe, quando ela lhe pergunta se está feliz por ser o irmão mais velho. Depois da descarga emocional, os pais não se zangam, e trazem-no para o ninho. É a sua ação simbólica. Depois, o desenlace narrativo dispensa-os, já que esta é a história do irmão mais velho. E o leitor fica a saber a razão de ser do título, que consiste numa reviravolta. Entre o onírico e a fantasia, este menino encontra a motivação para observar, pela primeira vez, a irmã com cumplicidade. É então que começa, na sua cabeça, a brincar com ela. 
O lúdico também é destacado, através da referência a brincadeiras e da representação de diversos brinquedos sempre por perto. A ilustração contribui largamente para a mensagem narrativa, com traços simples e limitados à definição essencial das formas, uma paleta de cores forte e reduzida e fundos que destacam os elementos narrativos a reter. O uso de vários ângulos também enfatiza ações, comportamentos ou emoções. 
É um álbum desassombrado, com humor e íntimo, sem pretensões didáticas ou moralistas, como uma boa narrativa deve ser.

→ orfeunegro.org