Um quadro para interrogar tudo

Hoje, 3 de Maio
Patrícia Portela
Caminho
O trabalho literário de Patrícia Portela tem sido sempre uma fonte consciente de inquietação, um processo que convoca a necessidade de desarrumar ideias ou estruturas – sempre assumindo as consequências dessa desarrumação – para melhor pensar sobre nós e o mundo. Livros como A Colecção Privada de Acácio Nobre, por exemplo, trazem essa inquietação a partir do desmantelar de um arquivo, esse símbolo de uma suposta organização, com todos os elementos devidamente classificados para elucidarem sobre alguma coisa, confirmando, ao longo das páginas, que a arrumação não é alheia às investidas da ficção, pelo que o próprio arquivo talvez seja apenas um reflexo do que quereríamos ter conhecido e organizado, ou até do que quereríamos que tivesse existido, e não um pedaço de mundo sem abalos.
Esta inquietação recorrente nos livros da autora tende a ser global, ou seja, a espelhar uma espécie de totalidade, assumindo que todas as taxonomias possíveis para darmos conta do mundo são sempre sujeitas à contaminação. Arrumamos para melhor perceber, criamos mapas para melhor caminhar, classificamos para podermos falar das coisas sem sermos engolidos pelo caos, mas nada nos protege dessa comunicação permanente de umas coisas com as outras, vírus e corpos (como no romance Hífen, de 2021), palavras e preconceitos, fronteiras e travessias. Pese embora essa globalidade, as inquietações que Patrícia Portela vai decantando nos seus livros partem frequentemente de elementos particulares e perfeitamente definidos – pelo menos, como ponto de partida – e este Hoje, 3 de Maio não foge à regra. O novo romance da autora tem no seu centro o quadro de Francisco Goya, Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808, pintado poucos anos depois desse massacre que atingiu os madrilenos que tentaram a sublevação, resistindo contra o exército francês. Desse centro irradiam múltiplas linhas narrativas, nenhuma delas focada em contar a história do quadro, pelo menos não desse modo enciclopédico.
Assumido como romance, este livro navega diferentes registos, muitas vezes aproximando-se do ensaio, da epístola e do diário, convocando também personagens a que podemos chamar, mesmo que com alguma cautela, reais, figuras históricas que temos como confirmar terem existido, devidamente documentadas e com os feitos – heróicos ou desastrosos – assinalados na cronologia que vamos empurrando para o futuro como se fosse a única que vale a pena salvar, mas também gente que supomos imaginada pela autora, ou gente cuja história não conhecemos, mas a que este livro dá corpo: «A 6 de Abril de 1922, perdemos a passagem secreta entre a ficção e a realidade, entre a realidade e a possibilidade. Abandonámos a melancolia e deixámos que a ansiedade preenchesse esta enorme sensação de vazio com que ficámos. Instalou-se uma amargura que cumpre desde então o dever de impedir o diálogo entre a literatura e a ciência exacta, enquanto o coração continua a palpitar ao ritmo de Galileu, convencido de que tem o rigor de um relógio.» (pg.213) Todas essas personagens se cruzam, interagem e produzem um rombo na ordem do mundo, mesmo que vivam em planos distintos e, heresia suprema num texto que não se dá ao trabalho de inventar etiquetas ou reclamar alguma que pareça mais conforme aos efémeros interesses do mercado, em tempos distintos.
O tempo, aliás, é categoria essencial neste livro, a possibilidade de uma ilusória compreensão que talvez só possa ser a consciência de um abismo – o do tempo que passa, certamente, o da morte, inevitável, mas também o da fragmentação de uma ideia arrumada de tempo enquanto sequência linear de horas, dias, anos, séculos, vidas. Invocando os elementos do quadro, os que olham, os que disparam, os que tentam proteger-se e não conseguem, o texto vai navegando entre esse passado bem demarcado do século XIX espanhol e uma atemporalidade onde se inscrevem os gestos, as passividades, as escolhas e as omissões que vão compondo não tanto aquilo a que chamamos História, mas antes o turbilhão de vidas que se vão cruzando numa mesma cronologia e todas as outras que, não partilhando o calendário, não deixam de se juntar ao vórtice que somos, porque nos antecederam ou nos vão suceder, porque ouvimos a sua história, porque um dia tropeçámos na sua sombra ou nalgum vestígio, ou porque as imaginámos.
A estrutura romanesca acompanha esta suspensão da ordem cronológica, um trabalho em torno da narrativa e dos seus alicerces que faz alinhar forma e conteúdo de um modo assinalável, assegurando que, em boa medida, a própria narrativa decorre da estrutura que lhe vai sendo conferida:
«Einstein, que memorizou o som do disparo que os soldados franceses no quadro não dispararam, compreende o tempo de Henri Bergson através da obra de Francisco Goya e vive paralisado nesse segundo quântico que ainda já aconteceu a 3 de Maio de 1808. A fuzilar e a ser fuzilado, a fuzilar e a ser fuzilado, a fuzilar e a ser fuzilado,a fuzilar e a ser fuzilado, ora a fuzilar ora a ser fuzilado. A acusar e a ser acusado. A carpir os mortos ou a evitar a morte. (…) O fuzilamento a 3 de maio é o futuro que não acontece enquanto continua a acontecer.» (pg.329)
3 de Maio foi em 1808 e é hoje, e nem é preciso ligar a televisão, que já pouco fala dos mandantes dos tiros que vão fuzilando o mundo; há-de ser amanhã, também. Haverá sempre quem soçobre, quem olhe, quem desvie o olhar. E quem dispare. Sem duvidar dessa permanência, Hoje, 3 de Maio não assume aquele discurso de pureza que se coloca fora do quadro, perguntando pelas razões a quem não tenta evitar os tiros (e quase sempre esquecendo os donos das balas). Pelo contrário, coloca-se no centro do quadro de Goya e em todos os seus espaços disponíveis, também do lado de fora, mas apenas para o olhar de muitos ângulos, alguns definidos pelo espaço, outros pelo tempo, enquanto vai lançando as perguntas todas sem piedade nem moralismo. O quadro de Goya vem do passado, mas nunca deixou de ser presente e essa característica é também questionada no texto, esmiuçando-se jogos de luz e sombra, escolhas formais, modos de pintar e retratar. Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808 nunca deixou de nos interpelar – lembremos o poema de Jorge de Sena, para nos atermos à literatura portuguesa – e o romance de Patrícia Portela assume essa força para com ela construir outras interpelações, agora assumindo o termo de um modo próximo ao do seu sentido jurídico, o de exigir explicações. Não é que o mundo responda quando tal exigência acontece, já o sabemos, mas a força de querer perceber, sobretudo a de querer perguntar sem evitar as esquinas da história e os alçapões do quotidiano, é capaz de ser combustível para algo mais fértil do que a mera lamentação.