Saramaguiana
por Patricia Jane 20 Agosto 2026
© João Francisco Vilhena

A Morte e o escritor

Aquele dia não tinha amanhecido para que a Morte chegasse. A vida acontecia com normalidade na ilha, sempre tinha sido assim, desde o início dos tempos, quando surgiu em meio do oceano e era habitada só por vulcões em erupção.

Neste lugar, o viajante, assim como o islenho, encontra uma paisagem erma, por vezes desoladora, composta de crateras, covas, montanhas e algumas enseadas. Mas, sobretudo, encontra a si mesmo, no silêncio de uma noite estrelada, na doçura do vento cálido, nas ásperas pedras, na terra negra. Aqui é onde o mar, o céu, a terra e o sol se fundem com a arte para criar uma obra cesárea, moldada por mãos respeitosas do que a natureza oferecer.

Neste lugar o viajante se sente livre, talvez por isso a Morte decidiu visitá-lo, ficando fascinada. Ela, que conhecia cada lugar da Terra, nunca tinha visto nada igual. Para entreter-se, a Morte observava os habitantes da ilha. Do alto pareciam formiguinhas atarefadas com as ocupações do dia a dia. Havia quem ia ao mercado, alguns falavam com os vizinhos, outros levavam o cão a passear. Observada-os, um a um, com atenção, até converter-se nas suas próprias sombras.

© João Francisco Vilhena

Conhecia o destino de cada um, quando e como dar-lhes-ia o último suspiro, ainda assim perguntava-se por que faziam o que faziam se sabiam que, cedo ou tarde, acabariam debaixo da terra ou transformados em cinzas. Era esse o grande mistério da vida, a Morte sabia, embora não fosse capaz de entender. No entanto, aquele dia não tinha vido de longe para fazer turismo. Algo mais importante prendia a sua atenção, um caso muito mais interessante que todos os outros juntos. O de um escritor que lá vivia. Tinha apenas um propósito, vê-lo, e não ia se distrair com outra coisa. Sem necessidade de andar a pé ou de táxi, como faria qualquer um de nós, num abrir e fechar de olhos já estava na parte alta da ilha. Havia uma casa, toda branca, com janelas verdes e uma oliveira no jardim. Entrou ser ser convidada nem esperada. Ninguém percebeu a sua presença, nem mesmo os cães latiram, embora mostraram-se mais inquietos que o habitual. A Morte, que teria podido ocupar todos os espaços, preferiu ficar na cozinha, coração daquela casa. Sentou-se numa das cadeiras e acomodou o lençol escuro que envolvia a sua silhueta enxuta, deixando a um lado a gadanha que, tacitamente, a acompanhava. Como um hóspede curioso, olhou ao redor. Cada coisa ocupava o seu devido lugar: móveis, algumas peças de barro, dois relógios, fotos, várias pinturas e livros, muitos livros. Tudo levava-a a entender que aquela casa não era só um lugar, era um corpo, uma memória, uma matéria feita de tinta e papel.

De repente, a Morte percebeu a presença de umas pessoas, ouviu vozes que vinham de outro cómodo, provavelmente gente que, como ela, tinha ido ver o escritor ou queria falar com ele. Levava muito tempo planejando o encontro e não se importava em esperar. Quando, depois de umas horas, os visitantes se foram, a Morte entrou num dos quartos do primeiro andar. Nela, um homem, deitado na cama, tentava ler. Fechou os olhos. Foi nesses instante que uma luz ténue, mínima, quase imperceptível, fez com que tudo ao redor aparecesse e desaparecesse. Advertiu uma presença. Talvez uma mulher, talvez só uma forma fantasmal. Não precisou nada mais para saber quem era. “Estava à tua espera”, ele disse com um fio de voz, porém firme. “Finalmente conhecemo-nos”, replicou a Morte. “Se queria surpreender-me, não conseguiste”. “Não pretendia fazê-lo, nem tampouco assustar-te”. “Que consideração”, replicou com sarcasmo. “Trazes a carta violeta?”. “Sim, aqui a tenho, mas não nos precipitemos, ainda não é a hora de entregá-la. Antes gostaria de conversar um pouco a sós contigo.” “Não tenho nada mais para fazer, adiante”. “Hum, hum”, a Morte aclarou a voz. “Sou como imaginavas, como me descreveste?”. “Bem, mais ou menos. Para ser sincero, agora que estás à minha frente pareces menos alta e não tão temível”. “Sabes que posso assumir a forma ou o aspecto que queira, más contigo prefiro ser eu mesma, sem disfarces”. “Estou de acordo. Sempre vi a realidade tal e como é”. “Eu sei, conheço-te muito bem, observo-te há muito tempo, poderia dizer que desde que eras uma criança que nasceu naquela aldeia desconhecida”. “Podias ter acabado comigo a qualquer momento e não o fizeste”. “Me concentrei em outras coisas, já sabes, tragédias, pestes, acidentes, mas nunca te perdi de vista.” “Então por que me deixaste viver até agora?”. “Tive a intuição de que eras especial. E não me equivoquei”. “Não creio ter sido mais do que os outros. Toda a minha vida quis seguir umas ideias e princípios, defender aquilo que considero justo. Foi só isso”. “Aqui que te pareça pouco o que fizeste, para outros significou muito. Consta-me que recebeste vários reconhecimentos importantes.” “Nunca fui ambicioso, nem aspirei ao sucesso e à fama. Só queria escrever, dizer o que pensava, nada mais”. “Por isso estou hoje aqui, para conhecer-te em pessoal, saber o que pensas.  Não é todos os dias que alguém tem um cara a cara comigo, és um escolhido”. “Sinto-me lisonjeado e aproveitarei a situação para fazer uma pergunta”. A Morte assentiu com a cabeça e o escritor, com brilhos nos olhos e apelando ao espírito crítico que lhe era próprio, soltou: “Tú, que és tão cruel e implacável, porque não acabaste com toda a humanidade desde o começo da história?”. Lançou a pergunta ao ar pronunciado as palavras com certo tom de desafio. A Morte demorou uns segundos até responder. “É verdade, sou o que sou desde o nascimento do universo, existo desde muito antes de que o vosso planeta fosse um diminuto ponto no infinito do Cosmo. O que não sabes é que eu também sou fruto da criação, como vocês.” “Não te entendo, explica-te melhor”. “Nasci da mente do vosso Criador, aquele que chamais Deus. Quando ele pensou o mundo queria que tudo estivesse em perfeito equilíbrio. Assim fez a vida e, como oposto, fez-me a mim.” “Queres dizer que foste uma invenção do Todo Poderoso?”. “Assim é. Ele me concedeu licença para matar sempre e quando mantivesse o equilíbrio no universo.” “E com isso queres demonstrar que, se tu existes, Deus também existe”. “Sei que tens a tua própria ideia Dele, deixas-te isso muito claro nos teus livros. Como já disse, observei-te este tempo todo.” “Dizem que um crente tem que se comportar como se Deus o estivesse olhando, coisa que nenhum ser humano poderia suportar salvo que se transformasse ele mesmo em Deus. Por isso, nunca me interessou, interessam-me, sim, os homens, e aquilo que nos faz humanos e dignos de viver.” “E o que me dizes do que a tua espécie faz? Matar, odiar, subjugar os animais, destruir a natureza. Sois uma praga, o cancro que acabará com o vosso planeta, que já não tem futuro. Sabes, para mim inclusive seria melhor assim, não precisarei fazer nada, sentar-me-ei na primeira fila para ver o grande espetáculo da vossa destruição”. “Nem tudo está perdido. Na minha vida conheci muitos homens e mulheres que lutaram por justiça e liberdade, inclusive sacrificando a própria vida. Continuo a ter esperança.” “Que para ti é melhor que ter fé, evidentemente.”

© João Francisco Vilhena

A morte fez uma pausa um pouco teatral, como para colocar ênfase no assunto. Às vezes gostava de imitar a forma de ser dos humanos. Em seguida prosseguiu: “Agora eu tenho uma pergunta para ti. Que sentido tem a vida para uma ser como tu, destinado ao fracasso, ao sofrimento e finalmente à morte?”. O escritor sentiu que tinha a respiração era cada vez mais entrecortada, pressentia que o final se aproximava, mas ainda tinha algo a dizer. “Considero-me uma pessoa que tem algumas ideias que serviram de razoáveis governos em muitos momentos da vida, tanto bons como maus. São nossos atos os que nos definem, cada um escolhe como viver. Pelo que me diz respeito, não nasci para ser escritor, mas os meus livros sobreviverão a mim e serão meu testamento para o que vier depois. Este é o meu sentido da vida.” A estas palavras seguiu-se um silêncio incómodo, mas necessário. O encontro tinha deixado o escritor e a Morte quase exaustos, como num combate de boxe.

A entrevista tinha chegado ao final. O escritor girou a cabeça até a janela, pousou o olhar no horizonte tingido de vermelho pelo entardecer. Não podia dizer si tinha estado à conversa com a Morte uns poucos minutos ou intermináveis horas. Tanto fazia pois teve a demonstração de que o tempo é relativo, como se fosse uma tira elástica que se estica e encolhe. Finalmente, a Morte retomou a palavra. “Ficaria a conversar contigo por toda a eternidade, e para mim ainda seria pouco, mas sabes que vim para isto.” “Sei, estiveste presente na minha vida estes últimos anos e nos intermináveis meses que passei no hospital, na doença que levo dentro e que me consome. Se tivesse mais tempo…” – e encolheu os ombros com ironia, porque sabia que eram palavras insensatas. “Sou consciente de que me foi concedido mais do que a outros e por isso agradeço”. “Sinto muito, mas não há mais prolongamento, não depende de mim, esta vez terás que vir comigo. Prometo que não sofrerás, será como dormir um doce e longo sonho.” De acordo, mas antes de irmos creio que que tenho direito a um último desejo.” “Tu me dirás”. “Beijar pela última vez a minha mulher, pilar da minha existência, e acariciar os meus cães, que são a alegria da minha vida”. A Morte, que ao fim e ao cabo não era tão cínica como se pensava, aceitou e concedeu ao escritor uns minutos para que se despedisse dos seus. “Muito obrigado”, foram as suas últimas palavras antes de fechar os olhos. A Morte então recolheu-o nos braços e pô-lo a ninar, como a um recém-nascido.

Caiu a noite na ilha e em toda a casa, que só era habitada por um luto silencioso e calmo, sem prantos nem desespero. No dia seguinte, o escritor ainda teve que fazer a última viagem para voltar à sua terra de origem, porque a ilha não era sua terra, mas era terra sua. Quando levantou voo, as vozes de amigos de tantos anos acompanharam-no lendo trechos dos seus livros. Assim acabou o caminho do homem que nasceu numa desconhecida aldeia e que, ainda que nunca quis ser, converteu-se em um dos escritores mais reconhecidos e importantes do seu tempo. Deixa, como era de costume, umas últimas perguntas:

Quem lê, para quê lê? Para encontrar o para encontrar-se? Para conhecer ou para reconhecer-se a si mesmo?

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Patricia Jane, leitora e escritora espanhola