Crítica Sara Figueiredo Costa 30 Julho 2026

A máquina do mundo

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia
Xavier Almeida
Péssima Editora

Antes da leitura, registe-se que este livro de Xavier Almeida marca o nascimento de um novo projecto editorial, a Péssima Editora, que se dedicará à banda desenhada.

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia reúne um conjunto de narrativas curtas em banda desenhada que ora se lêem como histórias, ora como ensaios, confundindo-se géneros, técnicas narrativas e estruturas de tal forma que se torna irrelevante encontrar a etiqueta mais acertada para este volume, cujo argumento teve participação de Pato Bravo (ainda que só o nome de Xavier Almeida apareça na capa). 

A primeira narrativa, a que dá o título ao livro, já havia sido publicada em 2024, em Barcelona, com selo da Estrela Decadente e impressa pela Maquina Total. Era claro, já nessa altura, que a descrição quase em modo reportagem da recolha de ferro na capital catalã, com algumas personagens envolvidas e um acesso, ainda que breve, ao seu quotidiano, era também – e sobretudo – um exercício de pensamento sobre as falácias ecológicas em torno da economia circular vendidas pelo capitalismo. Estes recolectores de ferro sobrevivem a partir do lixo sem qualquer outra forma de subsistência, sem acesso aos serviços que um Estado social deveria garantir e alimentando, com o seu trabalho precário e mal pago, as mesmas grandes empresas que delapidam recursos naturais e humanos em qualquer parte do mundo, sem qualquer escrúpulo, sem preocupação alguma com equilíbrios ambientais ou direitos humanos. É esse primeiro relato que marca o tom do volume, propondo uma reflexão mas, mais ainda, expondo os mecanismos que fazem rodar o mundo a partir de uma ideia de não ser possível viver de outra maneira que não esta que suga recursos e permite a acumulação de riqueza nas mãos de uma ínfima minoria.

A reflexão sobre o mundo em que vivemos, as relações que lhe servem de sustento e os processos que relacionam todos os seres, todos os elementos, todos os componentes possíveis que o integram parte da leitura de Anthropocene or Capitalocene?, o livro de Jason W. Moore que cunha a expressão cheap nature (registe-se que o autor assina o posfácio deste livro). Esse e outros livros são convocados nos vários exercícios de pensamento que cada uma destas narrativas vai propondo, umas vezes a partir de uma estrutura mais clássica, com personagens, acontecimentos, uma linha temporal – como nas histórias «Jovem herdeiro», ou «A monja» – outras de um modo mais centrado na observação de um certo pormenor da paisagem, um gesto, o movimento quotidiano de um animal, como acontece em «Pêga-rabuda» ou «Rocha brecha da Arrábida» (esta última surgindo já depois do posfácio, como uma espécie de coda).

O traço de Xavier Almeida acompanha as deambulações de pensamento numa gradação emocional que se materializa, em certos momentos, numa intensidade do risco, na sobreposição revoltada de traços e manchas, na velocidade que se imprime aos dias para que toda a gente ocupe o seu lugar na cadeia de produção de modo eficaz (eficaz para a criação de mais lucro para os detentores dos elos dessa cadeia, naturalmente). A estruturação das pranchas acompanha também o argumento no modo como alcança momentos de pausa e pensamento, contrastando-os com os momentos de avanço do enredo e construindo, por vezes, planos de pormenor que confundem personagens, cenário, objectos, animais, tudo afirmando-se como parte de um mesmo mundo. Essa é, aliás, uma das linhas de força deste livro, na senda do que o seu autor já havia desenvolvido em trabalhos anteriores, entre eles O Fim É Igual ao Princípio, criado com Pedro Bandeira, onde esta ideia de totalidade, umas vezes esmagadora, outras libertadora, era alicerce de uma narrativa que explorava a ideia de tempo e o modo como nos relacionamos com ele. Em Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, o tempo não deixa de estar presente, mas é o que temos vindo a fazer com ele na pequena e na larguíssima escala que serve de combustível para um livro inquietante, que bem podia fazer nascer alguma coisa concreta depois de tanto abanão nas meninges. Depende de quem o ler, naturalmente.

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