
Redes
Eloy Moreno
Presença
Tradução de Ana Rita Sintra
Depois do sucesso de Invisível, o escritor espanhol regressa à novela juvenil de temática social. Desta feita, são as redes sociais e os seus efeitos nefastos sobre um grupo de adolescentes que se cruza no mesmo ambiente escolar. Alguns deles transitam do bestseller de 2022.
Eloy Moreno mantém a carga dramática, através de descrições perturbadoras, retratando situações limite de perigo, manipulação, desespero e humilhação. Os capítulos curtos intercalam as experiências de cada personagem, no presente e no passado, constituindo um mosaico que o leitor tem de ir montando para que a narrativa faça sentido. O ritmo, em resultado de uma escrita que privilegia a frase curta, o diálogo ou o monólogo interior emocional, é bastante acelerado, alimentando assim o suspense. No início do livro, cada personagem tem já uma história que justifica o seu estado de espírito, o seu comportamento, as suas ações. Contudo, estes contextos prévios vão sendo partilhados com o leitor de forma muito gradual, o que promove o questionamento do texto, a criação de expectativas, a antecipação de situações e a sua verificação. A galeria de personagens é liderada por Betty, apaixonada por um influencer com quem acredita ter um compromisso. O seu desaparecimento é o primeiro momento da narrativa e, à medida que a investigação avança, o leitor vai recolhendo informações sobre o passado através do testemunho de Betty. Só no final, as agentes que a visitam para resolver o mistério do desaparecimento de Alex lhe revelam uma dolorosa e surpreendente verdade. A par de Betty, acompanhamos o quotidiano desesperado de Violeta, que os pais obrigam a ser influencer. Ranhoso e profegarrafa são ambos vítimas de bullying, depois de terem circulado vídeos que os ridicularizavam. Ainda há a melhor amiga de Betty, que vem resistindo à dependência das redes, um rapaz invisível, outro viciado em ver violência e ainda outro que foi vítima de um acidente. Ninguém é feliz, embora uns consigam encontrá-la e outros não.
Eloy Moreno denuncia a indiferença de alguns adultos, a exploração parental, a falsidade dos modelos de felicidade, o capitalismo selvagem, a predação sexual, a indistinção entre a inteligência artificial e a comunicação humana. Nesta novela, parece não haver esperança, apenas sofrimento. No final, lança-se um rasgo de alegria para poucos. Os outros continuam num abismo emocional e existencial.
Tendo em conta a temática e o sucesso do autor, este pode ser um livro promotor de muitas conversas e de reflexões por parte dos jovens leitores.