Editorial 5 Maio 2026

A mais formosa língua

Ao receber o Prémio Nobel de Literatura, em Estocolmo, no dia 10 de dezembro de 1998, José Saramago reservou parte do seu discurso para agradecer aos seus colegas de ofício, «E agora quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar.»

Uma língua viva, com vários sotaques, falada por mais de 270 milhões de pessoas em todo o mundo. Essa é a língua portuguesa, aquela que Luis de Camões chamou de “a mais formosa do mundo”, citação que José Saramago costumava recordar e com a qual concordava. Em novembro de 2008, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, voltou a citar a frase do autor de Os Lusíadas, acrescentando: «Há línguas portuguesas e não uma só língua portuguesa. Essas línguas são, ao mesmo tempo, iguais e diferentes».

Desde 2019, por decisão da Conferência Geral da Unesco, comemora-se em cada 5 de maio o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Além de celebrar a data e recordar a beleza do idioma que falamos, também é um bom momento para refletir sobre o cuidado que dispensamos à língua que recebemos e que deixaremos de herança às futuras gerações. Aquando da inauguração da exposição «A Consistência dos Sonhos», no Palácio da Ajuda, em abril de 2008, José Saramago fez um discurso em defesa da língua portuguesa. «Nós, os que estamos aqui neste tempo, no que chamamos mundo de Língua Portuguesa, temos obrigação de escrevê-la bem, cada vez melhor, mas há outra obrigação que temos: falá-la bem». O autor de Memorial do Convento disse que era preciso tomar consciência de que a nossa língua era um «bem precioso» que não é de ninguém em particular, senão obra de todos. «Temos a obrigação de fazer melhor em defesa dela (…) Somos responsáveis pelo destino da Língua Portuguesa», terminou.

Cada um dos milhões de falantes da nossa língua carrega consigo um bocadinho dela. Usá-la bem, cuidá-la, transmiti-la com carinho aos mais novos é um dever que temos, para que ela não se estrague e não se perca, para que continue a mais formosa de todas.