Saramaguiana
por Rodrigo Gomes de Oliveira Pinto 14 Maio 2026
© Juan Ramon Iborra

As indagações de Pilar del Río em “A Intuição da ilha”

No mês passado, Pilar del Río esteve em Salvador e em São Paulo para participar numa série de atividades. Na capital paulista, a presidenta da Fundação José Saramago esteve no Colégio Santa Cruz para uma conversa com alunos e educadores a propósito do seu livro “A intuição da ilha: os dias de José Saramago em Lanzarote”. A Blimunda publica o texto de que Rodrigo de Oliveira Pinto, professor de literatura, leu durante a sessão.

Pilar del Río sabe o sentido do ato de escrever que se assume como profissão de fé. É jornalista, escritora, tradutora e, desde 2007, presidente da Fundação José Saramago. Sabem os leitores do livro que tenho em mãos, foi agraciada, em 2016, com o prêmio Luso-Espanhol de Arte e Cultura em decorrência de sua dedicação “à defesa dos direitos humanos, à promoção da literatura portuguesa e ao intercâmbio da cultura portuguesa, espanhola e latino-americana.” Essa dedicação se materializa, muito particularmente, neste A intuição da ilha: os dias de José Saramago em Lanzarote, estampado no Brasil, em língua portuguesa, pela Companhia das Letras, em 2022. Pilar del Río é escritora sevilhana de nascimento, que fez de uma ilha — a de Lanzarote, nas Canárias espanholas — uma intuição, como o título da obra o sugere.

José Saramago e Pilar del Río são personagens que protagonizam não só A intuição da ilha, senão também este José e Pilar: conversas inéditas, do cineasta português Miguel Gonçalves Mendes, que chegou a nós em 2012 pela mesma editora, com prefácio de outro escritor, Valter Hugo Mãe. Miguel Gonçalves Mendes, todos se lembrarão, dirigiu o longa-metragem homônimo José e Pilar, lançado em 2010, do qual o livro é par inseparável.

Permito-me, muito temerariamente, com a liberdade que o gênero admite, assumir o risco de afirmar que A intuição da ilha é, sob a forma do relato breve e lento que consagra o instante e salva-lhe da indiferença dos dias, um ensaio sobre a intuição — a intuição da indagação aguda como estado de existência, a intuição de quem questiona de que pedra a estátua é feita, a contrapelo da cegueira e das certezas das múmias. Entrelaço aqui palavras de um livro e de outro, o de Pilar del Río e o de Miguel Gonçalves Mendes, e tenho em mente o Quixote de Cervantes. Os leitores de José e Pilar: conversas inéditas me entenderão.

As indagações são proliferantes no livro que Pilar del Río nos convida a ler: “E se fôssemos morar em Lanzarote?”; “E se Fernando Pessoa se encontrasse com seu heterônimo Ricardo Reis?”; “E se Jesus Cristo não fosse Deus?”; “E se todos ficássemos cegos?”; “Onde estão os valores do Humanismo que se apresentaram como salvadores?”; “Valoriza-se o conceito de cidadania ou é o negócio que manda?”; “E se nunca se morresse?”. Essas indagações e outras que nos atravessam no relato dos dias proliferam na voz de uma das personagens deste livro — refiro-me a José Saramago —; mas dizem tanto da personagem como da voz que lhe dá forma discursiva. O José Saramago de Pilar del Río e a voz narrativa forjada por Pilar del Río põem-se frente a frente com o vazio mobilizante das indagações — insisto, mobilizante — e fazem da escrita meio pelo qual se imagina o inimaginável e se combate o indizível da barbárie, transcorra ela na Espanha, no México ou em Gaza.

A intuição da indagação contrapõe-se na obra à “razão cega que não sabe aonde vai nem quer sabê-lo”. A intuição da ilha contrapõe-se também ao impensado da vida administrada — esta, sim, imobilizante —, como se, em Lanzarote, o tempo não existisse e pudessem aí aflorar com a devidas importância e significância o pão, as pedras, as roseiras. Ou como se, em Lanzarote, enfim, José e Pilar determinassem pela escrita e com a escrita de ambos as intermitências da morte, e os silêncios decorrentes dela pudessem ser esquecidos e preenchidos no ato de leitura por cada um de nós, leitores. Ao fim e ao cabo, talvez seja o que nos cabe.

Não devo me alongar, mas acrescento, arriscando-me uma vez mais, que A intuição da ilha nos sugere que não se deve calar, mesmo depois de instaurado o silêncio. É, desse modo, que José e Pilar, que José Saramago e que Pilar del Río professam o engajamento utópico da palavra escrita, compromissada com porvires possíveis e inimagináveis e livres do indizível da barbárie.

Só posso agora pedir que Pilar del Río não seja implacável com os riscos de leitor que assumi. Sou grato à generosidade do que ela nos trouxe e do que nos traz. Muito obrigado. Eu insisto.

São Paulo, 23 de abril de 2026.