Casa da Andrea Andréa Zamorano 31 Março 2026

A cabeça de Clarice

A escadaria

            Subi correndo a escadaria de madeira bege-amarelada, saltando de dois em dois degraus, com a perna esticada e uma lança comprida com ponta de ferro na mão direita. Enquanto subia, reparei que a madeira envernizada brilhante era macia ao toque da minha bota pontiaguda, curiosamente não escorregava. Os degraus eram largos e depressa a escada fez notar a sua força quando curvou à direita. Precisei de todo o fôlego para voltar a alçar o meu corpo e ultrapassar mais um par de degraus.

            Usava umas calças elásticas pretas, colantes, me davam grande mobilidade. No tronco, uma blusa do mesmo tecido, sobreposta por outra em malha de ferro, de um prata cintilante, parecida com as que usam os açougueiros, talhantes ou magarefes. Ainda havia as luvas de couro preto que me ajudavam a agarrar bem o corrimão largo e ganhar impulso na subida.

            Cheguei ao último lance da escada de uma casa apalaçada. Encostei-me no parapeito e, lá de cima, pude ver os vários andares em caracol. Foi também aí que me dei conta de que sofria de uma maldição, embora não soubesse qual. O meu namorado estava lá embaixo, sem pernas, numa cadeira de rodas, disposto a subir tudo aquilo para estar comigo.

— É muito sacrificado. Eu desço — gritei.

— Não, você não pode fazer isso.

            De repente, uma porta se abriu e fui puxada para dentro. A minha saia — sim, agora tinha saia no lugar das calças colantes — fez um crepitar de papel crepom sendo amassado quando roçou as ombreiras da porta. Não vi o que me puxou. Continuei correndo.

            Meu namorado ficou para trás, se arrastando, com o seu meio corpo pelas escadas acima. Eu corria pelos corredores daquela casa enorme. Numa esquina, apareceu a minha mãe. Ela sempre aparece, mas nunca faz nada. Surge apenas para me repreender por eu estar fazendo alguma coisa que ela considera inadequada ou apenas fica imóvel, me olhando, indiferente ao que eu faça.

            Continuei até um corredor compartimentado por várias portas deslizantes de papel de arroz. Foi uma dessas finíssimas portas que me separou, por uns míseros minutinhos, do grupo de hip-hop. Do outro lado, eles berravam rimas em espirais com palavras estapafúrdicas como esta última.

            Então a portinhola de papel escorregou lentamente para o lado.

            Um japonês, com uma franja comprida que caía sobre o olho direito, me olhou. O hip-hop se intensificou tanto em palavras quanto em volume. O japonês vinha todo de azul, na mesma malha colante que eu trazia, e também tinha uma lança pontiaguda.

            Consegui olhar bem para a lança: era a minha.

            Estava de frente a um homem armado, num cubículo de papel de arroz e palavras esdrúxulas. 

            Virei para trás, desatei a correr.

            A uma certa altura tive mesmo de parar, não conseguia mais conter. Entrei num banheiro enorme, todo revestido de pastilhas brancas com florzinhas pretas no chão. Estava cheio. As pessoas conversavam umas com as outras, ninguém prestou atenção em mim.

            Então levantei a saia, abaixei as calcinhas e comecei a fazer xixi. Quando olhei para cima, vi um chuveiro que até então não tinha reparado, mesmo por cima do vaso sanitário. Enquanto eu estava ali, dos seus orifícios saíam finas linhas de água pastosa e castanha.

            Chovia diarreia.

            Comecei a gritar.

            Fiz força, não conseguia me levantar. Olhei para os meus pulsos: estavam atados por ligaduras às laterais de ferro, pintadas de branco.

            Tudo, agora, era branco.