por Elton Uliana
17 Março 2026

Intermitentes e Insepultos: uma leitura das obras de José Saramago e Érico Veríssimo
Escrever sobre a morte, ou mais precisamente, sobre a recusa da morte em cumprir o seu ofício silenciador, exige do escritor uma coragem que transborda a técnica para instalar-se na ética, pois, tanto em As Intermitências da Morte de José Saramago quanto em Incidente em Antares de Érico Veríssimo, o que o leitor observa não é o mero exercício do fantástico como estéril fuga da realidade, mas sim a utilização do absurdo biológico como uma lente de aumento capaz de distorcer as máscaras da hipocrisia social.
Se a literatura é, como Saramago demonstrou em romances como o Ensaio sobre a Cegueira, Todos os nomes ou Caim, o exercício contínuo de dar nome ao inominável, o que encontramos na maturidade alegórica do autor e na obra final de Veríssimo pode ser concebido então como um “princípio do fantástico”; uma etiqueta moral que opera muito mais por meio de um contraste metafísico absoluto do que por um virtuosismo estético desvinculado das urgências do mundo. Afinal, para ambos, o recurso ao absurdo não nasce de um ponderado fetiche pelo estranho, mas da percepção aguda de que a realidade comum já não era suficiente para conter a verdade que precisavam revelar. No universo saramaguiano das Intermitências, somos confrontados com a derradeira ausência da morte, daquilo que deveria vir e não vem, uma perturbadora lacuna ontológica deixando a humanidade suspensa em um limbo de eternidade burocrática desgovernada; já nos inóspitos cenários de Antares, Veríssimo nos coloca face a face com a presença inaudita dos insepultos, neste caso um excesso fenomenológico, mas igualmente perturbador, permitindo que toda aquela carne que deveria ter ido, ficasse para denunciar a podridão dos vivos. Nenhum deles nos entrega o fantástico como um adorno estilístico; pelo contrário, nos presenteiam com um espelho magnificamente estranho que devolve nossa própria imagem ainda mais nítida, forçando-nos a encarar o intervalo trágico e inevitável entre o fim que não sabemos acolher e o passado que nos recusamos a enterrar. E se digo ‘magnificamente estranho’, também não o digo por mero efeito oximorônico ou retórico; digo ‘estranho’ porque o espelho subverte a nossa lógica, mas digo ‘magnífico’ porque seus criadores nos obrigam, através dessa frágil arquitetura de vidro, a uma ampliação da visão que dói na mesma medida em que ilumina. O ‘magnífico’, aqui, não se aplica apenas ao que nos deleita e conforta como leitores, mas também ao que nos despoja. As duas obras são grandiosas porque nos deixam nus diante da verdade.
Se no meu ensaio anterior na Blimunda sobre Caim, o romance final desse escritor-viajante que admiro com inesgotável fervor, meu foco concentrou-se na capacidade irônica e sedutora da narrativa de desvirtuar a autoridade sacrossanta através de uma oralidade que convoca o leitor a ser cúmplice da sua própria heresia, encontro agora, relendo o Antares de Veríssimo, o eco perfeito do mesmo tipo de inquietação humanista que impulsiona a obra de Saramago. Em Veríssimo, o sotaque das estâncias e o gelo da névoa do Rio Grande do Sul não restringem ou diminuem, mas sim expandem e universalizam a dor de personagens que, por terem sido privados da dignidade do enterro, se veem obrigados a gritar as verdades que os vivos, em seu “confortável verniz de civilidade”, preferiam manter soterradas.

Deparo-me também com uma afinidade eletiva, quase mística, entre o coreto de Antares e as cartas da figura da morte de Saramago. Enquanto os sete insepultos de Veríssimo – liderados pela memória martirizada de João Paz – representam o excesso da carne que apodrece para evidenciar a decomposição moral de uma elite provinciana que me é tão familiar quanto dolorosa; a greve da morte saramaguiana revela uma ausência primordial, desmascarando a hipocrisia inerente às instituições – Estado, Igreja e Capital – que só sobrevivem porque o medo aterrorizador e a perplexidade que sentimos diante do fim funcionam como garantia de subordinação e obediência. É fascinante perceber como as longas digressões de Saramago, com suas irresistíveis orações subordinadas que se entrelaçam e se adiam como se a própria vida não pudesse ser interrompida por um ponto final, dialogam consonantemente com a retórica igualmente lírica de Veríssimo, que constrói uma narrativa histórica tão densa sem jamais permitir que a chegada do fantástico soe como um rompimento, mas sim como a síntese lúcida e lógica de uma dissimulada sociedade que já se encontrava morta por dentro.
É impossível não evocar, diante do palanque improvisado em Antares, uma sentença que ecoa como um badalar estrondoso em O Tempo e o Vento, quando Veríssimo nos recorda que “o tempo não é uma linha, mas uma rede de muitos fios”. Afinal, o que são aqueles sete mortos senão fios esgarçados, rompidos que se recusam a ser tecidos no manto do esquecimento oficial? Nessa cartografia da desolação, onde o silêncio das frentes de fronteira não é apenas paisagem, mas um ininterrupto estado de espírito, o “incidente” se torna a ruptura necessária para que a história deixe de ser uma narrativa vociferada pelos vencedores e passe a ser o lamento honesto da própria terra. Por outro lado, nas Intermitências, Saramago nos conduz por um labirinto onde a morte, esgotada com sua própria imortalidade solitária, se detém diante da janela de um músico que insiste em continuar tocando seu violoncelo. Se em Antares o excesso da morte presente exige justiça, no universo ficcional de Saramago a insistente ausência da morte exige consternação e humanidade; e é nesse encontro entre a música e o silêncio que o autor português atinge o ápice da sua provocação metafísica: a morte se humaniza através da arte, enquanto os humanos se desumanizam através da conveniência.
O legado que estes dois gigantes nos confiam não é o de um acolhimento plácido e anestésico, muito menos o de uma catarse efêmera e ineficaz, ou seja, um espasmo emocional que se esgota em si mesmo sem transformar o sujeito; a lição que nos deixam é, antes de tudo, sobre o valor de uma vigilância perene da consciência contra as perigosas seduções do esquecimento. Em Saramago e Veríssimo, a literatura deixa de ser um objeto de consumo estético para se tornar um modo de resistência política e existencial. Eles nos provaram que, seja no coreto de uma vila fictícia fustigada pelo minuano ou no quarto de um músico anônimo sob o aterrorizante silêncio da morte, a palavra é o único sopro capaz de reanimar os mortos da história e de forçar a própria finitude a se curvar diante da exequível dignidade humana.

Ao revisitar estas obras – e ao recordar a imagem de Sontag ao lado de Saramago, dois olhares que nunca se esquivaram da crueza do real – sinto que a minha admiração pelo mestre de Azinhaga e a minha raiz visceral no Rio Grande de Veríssimo não são formas distintas de afeto, mas faces de uma mesma urgência: a de não permitir que o vergonhoso verniz da civilidade abafe o grito dos insepultos clamorosos que ainda habitam nossas sociedades. Saramago e Veríssimo nos deixaram uma vastíssima e irrequieta cartografia da humanidade para que nunca mais nos percamos na insidiosa cegueira moral que insiste em nos fragmentar. Tecem, entre Portugal e o Brasil, uma rede de finos fios vivos que – tal como a teia de aranha de Woolf, precariamente presa aos quatro cantos da realidade – nos protege contra o mais capcioso dos males: a facilidade com que os vivos, uma vez restabelecida a ordem, tratam de enterrar a memória com a mesma pá com que escondem as suas próprias omissões.
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Elton Uliana é escritor,crítico literário e tradutor brasileiro radicado em Londres, onde atua como coeditor do Brazilian Translation Club na University College London (UCL).