Estante Andreia Brites 3 Fevereiro 2026

Rapariga em pedaços 
Kathleen Glasgow
Presença 
Tradução de Regiane Winarski

O primeiro contacto do leitor com a protagonista, Charlie Davis, acontece na chegada a um lugar que não se percebe se é um hospital, uma casa de acolhimento ou um centro de recuperação. É ela quem vai descrevendo o seu presente, entrelaçado com memórias e associações a momentos do passado. Ao longo da primeira parte da narrativa, as informações vão ganhando lógica temporal e causal e os vazios, que colocam interrogações, vão sendo preenchidos. É esta estrutura que cria expectativas no leitor e o prende ao texto. A partir da segunda parte, embora a estrutura se mantenha, já é conhecida grande parte da vida trágica da adolescente de dezassete anos que procura agora refazer a sua vida, lutando contra as emoções autodestrutivas que persistem. O abandono familiar, a perda do pai, a relação violenta com a mãe, a exclusão social na escola e, posteriormente, a vida nas ruas e a agressão por dois homens, transformam Charlie em alguém sem auto-estima, profundamente traumatizada e silenciosa. Ao longo do romance, o leitor acompanha o seu percurso, as suas angústias, medos e revolta, e os lugares de esperança e alegria. Entre o seu sentido estético, a sua sensibilidade, a expressividade dos desenhos que volta a criar e algumas pessoas que a apoiam e de quem gosta, Charlie traça um caminho não linear. 
A narrativa alimenta-se da sucessão de acontecimentos, descrições que explicitam a caracterização das personagens, das ações e dos espaços. Apesar de se ir compondo o passado ao longo do livro, não há muita margem para inferências, o que limita a sua qualidade. Responde sobretudo a uma relação empática que se estabelece com a protagonista e à curiosidade de se acompanhar alguém que consegue sobreviver, apesar da tragédia.

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