Destaque Sara Figueiredo Costa
3 Fevereiro 2026

As artes cénicas em livro

Publica-se pouco teatro em Portugal e ainda menos sobre teatro e artes cénicas em geral. Não é de agora, mas a constatação continua relevante, sobretudo numa altura em que algum teatro português vai ganhando destaque no estrangeiro, quer com a digressão de espectáculos, quer através do trabalho de actores, encenadores e outros profissionais. Navegar por entre as estantes das livrarias e encontrar livros relacionados com esta temática tão vasta é quase uma actividade de garimpo, por isso propomos esta digressão bibliográfica pelo que se vai publicando, quer em termos de dramaturgia propriamente dita, quer em termos de livros que, de algum modo, reflectem sobre as artes cénicas ou as documentam.

Textos teatrais

Na Imprensa Nacional – Casa da Moeda, a secção de teatro é curta, pelo menos no catálogo mais recente e disponível. Aos Ensaios de Teatro, de Eugénia Vasques, e ao volume colectivo Teatro de Revista em Portugal: Revistas «Perdidas» e Outras (1851-1868) junta-se a obra dramatúrgica de Natália Correia e um volume que reúne quatro peças de Almeida Garrett, O Corcunda por Amor, Tio Simplício, Falar Verdade a Mentir , O Conde de Novion. E começamos pela INCM porque é sua missão a preservação e difusão do património bibliográfico da língua e da cultura portuguesas e, tendo em conta a quantidade de livros de ou sobre teatro, fica mais claro o panorama geral da edição nesta área.

Em 2003, os Artistas Unidos começaram uma colecção intitulada Livrinhos de Teatro, publicando textos de vários autores e autoras que a companhia foi trabalhando, numa parceria editorial com a Cotovia. Entretanto, o fim da Cotovia não ditou o fim dos Livrinhos de Teatro e as edições em formato de bolso, com capa cor cartonada a lembrar o velho papel pardo, continuam a surgir e a dar a ler sobretudo textos contemporâneos. Os títulos mais recentes são O Meu Amigo Freddy Krueger/ Valentim, de André Murraças, e E Sonhei que Me Estava a Afogar/ Mudar de Pele, de Amanda Wikin.

A Tinta da China é uma das raras editoras generalistas que publica textos dramatúrgicos com alguma regularidade. No seu catálogo encontramos um clássico de Ésquilo, o Prometeu Agrilhoado, e uma antologia de textos dramatúrgicos de Fernando Pessoa intitulada Teatro Estático (onde se inclui o incontornável O Marinheiro, mas também vários textos inéditos ou pouco conhecidos). A estes juntam-se  uma dezena de títulos de dramaturgos mais recentes, de Rui Cardoso Martins (com Última Hora) a José Maria Vieira Mendes (O Pior É Que Fica), passando por David Mamet (Oleanna), Martin Crimp (No Campo) ou Tiago Rodrigues (com Na Medida do Impossível e Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas, que há-de ser a primeira peça em língua portuguesa a subir ao palco do National Theatre, em Londres, em Setembro deste ano).

Na Assírio & Alvim, o catálogo dramatúrgico não é extenso, mas a referência é relevante pelo facto de aí se encontrarem alguns clássicos da literatura portuguesa, como Luís de Camões, num volume que reúne as três peças conhecidas de entre a sua vasta obra, o Auto dos Enfatriões, a Comédia d’El-Rei Seleuco e as duas versões do Auto de Filodemo, e Gil Vicente (com Breve Sumário da História de Deus). A esses dois autores juntam-se José de Almada Negreiros, com Teatro Escolhido, e Manuel António Pina, com Teatro, um volume que colige toda a sua obra dramatúrgica.

Pensar o teatro e conhecer-lhe a história

Em 2020, o Teatro Nacional de São João, no Porto, celebrou cem anos de existência com uma programação vasta onde se incluiu o lançamento de uma colecção de livros. Empilhadora, assim se chama essa colecção, é uma parceria entre o TSNJ e a editora Húmus e tem vindo, nestes seis anos, a editar um conjunto coerente de títulos que navegam a história do teatro, a estética, o ensaio e a biografia. Palco Assombrado: O Teatro Enquanto Máquina da Memória, de Marvin Carlson, Falhar Melhor – A Vida de Samuel Beckett, de James Knowlson e Contra o Teatro Político, de Olivier Neveux são alguns dos títulos desse catálogo que se tem vindo a construir aos poucos, com uma regularidade que não é comum nos empreendimentos editoriais dedicados ao teatro. Cumprindo uma das suas funções institucionais, enquanto Teatro Nacional, o TNSJ tem assumido esta missão, disponibilizando os livros em cuidadas edições, com boas traduções e ampliando cada vez mais o espectro temático, cronológico e autoral dos livros que publica. O título mais recente é A Vida do Drama, de Eric Bentley, com tradução de Ana Maria Pereirinha, um livro sobre o tanto (e as tantas disciplinas, saberes, ofícios e formas de se e estar) que compõe a identidade daquilo a que há tantos séculos chamamos teatro.

Uma das editoras que se tem destacado pela publicação de ensaios e outros textos em torno do teatro e das artes cénicas é a Orfeu Negro, com um catálogo onde pontuam clássicos como O Espaço Vazio, de Peter Brook, grandes panoramas como A Arte da Performance, de Roselee Goldberg, ou a revista Sinais de Cena, que em boa hora esta editora passou a imprimir e distribuir.

Vários projectos editoriais de pequena, ou pequeníssima, dimensão vão assegurando a publicação de outros livros, sobretudo peças de teatro, muitas vezes associadas a uma determinada companhia. Longe das grandes superfícies livreiras, boa parte desses livros pode encontrar-se em livrarias independentes, conforme as suas preocupações na constituição do fundo de catálogo que as sustenta, mas a melhor maneira de manter um registo do que vai saindo e poder comprar, caso se queira, edições de pequenas editoras será a Livraria do Teatro, associada ao Teatro Nacional D. Maria II, cujo espaço físico permanece fechado em função das obras que continuam a decorrer no edifício, em Lisboa, mas que mantém actividade online. Aqui encontram-se algumas dessas edições mais difíceis de encontrar noutras livrarias e também as que levam o selo de chancelas com distribuição nacional.

O Teatro Nacional D. Maria II é também um dos responsáveis por um acervo editorial dedicado ao teatro que junta dramaturgia, teoria, biografias e documentação numa colecção intitulada Textos de Teatro que se publica há mais de 15 anos, em parceria com a Bicho-do-Mato. São mais de seis dezenas de títulos, o que, no panorama editorial das artes cénicas em Portugal é muito considerável, e recentemente alguns títulos que haviam esgotado voltaram a ganhar corpo no papel e na tinta.  Glória ou Como Penélope Morreu de Tédio e Violência – Fetiche de um Homem Bom, ambos de Cláudia Lucas Chéu, Coriolano e À Vossa Vontade, os dois de William Shakespeare e Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee estão novamente nas livrarias, prontos para a leitura.

Longe da voragem das novidades editoriais, resta lembrar que ainda há alfarrabistas onde edições mais antigas e, em alguns casos, descatalogadas, se podem encontrar. E há, claro, bibliotecas públicas e arquivos de algumas instituições teatrais (desde logo no Teatro Nacional de S. João e no Teatro Nacional D. Maria II), compondo o maior repositório de livros de e sobre teatro a que podemos deitar a mão e entregar a leitura.