Espelho Meu Andreia Brites 12 Janeiro 2026

Para sempre
Assia Petricelli
Sérgio Riccardi
Fábula
Tradução de Joana Burnay

Esta banda-desenhada juvenil percorre vários temas relevantes para os adolescentes e relaciona-os a partir de um contexto espácio-temporal preciso: as férias. O mais interessante é que, para além da ação principal, outras histórias paralelas vão sucedendo. Estas são igualmente relevantes para o desenvolvimento da protagonista mas podiam simplesmente não existir. Igualmente, podiam soar forçadas, por ocuparem demasiado tempo na narração ou, ao contrário, por parecerem precipitadas, sem razão de existirem por falta de contexto e coerência. Nada disto acontece e a narrativa ganha densidade.

A novela acompanha uma rapariga que vai de férias para uma vila balnear, rendida ao turismo, com os pais e o irmão. Ali encontrará as suas amigas e um colega por quem se sente atraída. Desde logo, percebem-se tensões entre Viola e a mãe, sobretudo por divergências acerca da imagem feminina. O tópico da imagem física é abordado em vários momentos, quer nos diálogos textuais, quer nas ilustrações em que as raparigas se observam e perscrutam as características que consideram negativas. Também o tópico da relação amorosa e de sedução entre raparigas e rapazes tem um espaço importante.

O contacto, os limites que são ou não impostos, os comentários e as ideias que as personagens partilham confluem para mostrar abusos masculinos e fragilidades femininas, ora abertamente manifestadas, ora escondidas por ações de violência permitida. Viola passa por uma experiência de tentativa de abuso e é vítima de comentários machistas que a enraivecem e revoltam. Porém, também descobre o prazer e o encantamento genuíno. Uma das suas amigas debate-se com um corpo que não corresponde ao normativo da beleza e sente-se insegura por isso. Outra tem um namoro abusivo e controlador, chegando a ser vítima de violência verbal e física. Enquanto tudo acontece, as famílias estão ausentes, manifestando o seu poder sem qualquer entendimento ou real proximidade das filhas, pelo menos até serem confrontadas com a realidade. Ao invés, um casal de mulheres torna-se o porto de abrigo das jovens, partilhando experiências e dando-lhes conselhos. A doença terminal de uma delas é, provavelmente, o elemento mais transformador para a protagonista, contribuindo decisivamente para que aquelas férias constituam um momento de crescimento e aprendizagem. O final da narrativa é moderadamente surpreendente, não tanto pelo que acontece mas mais pela forma como Viola o descreve e como narra a sua vida logo após o regresso a casa. 


É uma narrativa de crescimento, em que os vários momentos são contados através de vinhetas, muitas sem qualquer texto, que retratam a interação das personagens, a aproximação dos corpos na praia, a dançar ou a acariciar-se. Há igualmente muitas imagens dos rostos, evidenciando as emoções das personagens. Nada na narrativa é excessivamente dramático nem os momentos são descritos à exaustão. É isso que permite ao leitor processar o que lê e relacionar-se com os vazios, de acordo com o seu contexto biográfico e com a sua experiência de leitura.

→ penguinlivros.pt