Crítica Sara Figueiredo Costa 19 Maio 2026

Vulnerabilidade e Luta

A Feliz e Violenta Vida de Maribel Ziga
Itziar Ziga
Orfeu Negro
Tradução de Margarida Amado Acosta

A autora basca Itziar Ziga assina neste livro um registo pessoal, íntimo e sempre honesto (por vezes, de forma brutal) sobre a sua infância e o modo como este período da vida a definiu. O percurso pessoal e político desta escritora, que foi activista na Frente de Libertação Gay da Catalunha, assinou textos em diversas revistas feministas e contribuiu intensamente para o colectivo Post-Op (grupo de activistas queer e pós-pornográficos), não é alheio a tudo o que aqui se escreve, naturalmente.

A estrutura de A Feliz e Violenta Vida de Maribel Ziga é a de um pensamento crítico que se foi desenvolvendo à medida de uma reflexão construída no tempo, sempre analisando os factos e assumindo as escolhas feitas a partir deles. As de Itziar Ziga são, sem surpresa, comprometidas com o feminismo e a interseccionalidade que tem dado forma ao seu trabalho mais vasto:

«Não vá restar alguma dúvida: nós, as mulheres, somos 50 por cento da população mundial, realizamos três quartos do trabalho mundial,  mas possuímos 10 por cento do dinheiro e 1 por cento da propriedade. ONU dixit. Digam lá se não vos apetece ir par a rua com um lança-chamas? Patriarcado, capitalismo e colonialismo: os três estarolas. Amigos para sempre!» (pg.96)

Se a consciência da desigualdade profunda, entre géneros e não só, atravessa este livro, o registo autobiográfico e a reflexão sobre o passado pessoal e os seus ecos no presente são são a sua matéria-prima. É a partir dessa reflexão, declinada em tom terapêutico, mas sem conselhos ou assunções cabais sobre as vidas alheias, que Ziga faz avançar o relato onde é protagonista, alicerçado no papel de destaque dos seus dois co-protagonistas: o pai, violento, causador de diversos momentos traumáticos, e a mãe, corajosa, mesmo que embrulhada nessa contradição vista de fora que só muito tarde lhe permitiu afastar-se do homem que a maltratava. Este está longe de ser um relato em tom de auto-ajuda, mindfulness ou seja lá qual for a etiqueta que transforma a miséria humana em livros extremamente vendáveis. A Feliz e Violenta Vida de Maribel Ziga não pede desculpas nem se entretém com julgamentos que apontam para outros desenlaces, preferindo focar-se no desenlace real e, sobretudo, na memória e no seu papel nesse duro caminho da aceitação que é, no texto de Ziga, um caminho de rebeldia, afirmação e força:

«Eu devia ter sete ou oito anos e aterrorizava-me de tal maneira o próximo e inevitável ataque do meu pai à minha mãe, que comecei a inventar rituais. (…) abraço essa miúda que abandonou os seus atormentados rituais para escolher a realidade, a maldita realidade. Porque aceitá-la não significa acatá-la. Desde essa altura, sei que sou fortíssima. Vulnerável, flexível e forte como o caraças.» (pg.39/40)

Para lá do registo confessional, a caminho de uma auto-compreensão que confirmará a sua força e a genealogia dessa força entrelaçada com a história das mulheres e a sua libertação, o relato de Itziar Ziga é também um retrato de alguns sectores da sociedade espanhola pós-franquista, indo, por vezes, um pouco atrás na cronologia, com derivas até aos anos da ditadura e à infância da mãe da autora. Percebe-se, nessas derivas, o peso do patriarcado na educação de homens e mulheres e o seu papel na eternização da desigualdade, mas também as pequenas heranças, sob a forma de narrativas e resistências várias, que tantas mulheres foram guardando e, com isso, criando uma muralha defensiva onde, por vezes, surgem brechas por onde passar ao ataque. Poderá parecer contraditório, mas quase tudo neste livro contraria essa ideia de que o mundo se arruma a preto e branco (desde logo, o título). Itziar Ziga reconhece-se nessas heranças, partilhando algumas delas no seu texto – histórias verídicas contadas pela avó, pela mãe, por outras mulheres que foi conhecendo – e reclamando a sua força para se firmar no mundo, reconhecendo o que viveu sem escolha e deitando a mão ao que quer escolher, mesmo que lhe digam que não pode.

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