Um mundo para ricos
Uma dúzia de pessoas concentra uma riqueza superior à de mais de metade da população da Terra. Dito de outro modo, há 12 pessoas cuja riqueza é maior do que a de 4 mil milhões de seres humanos. Os dados foram apresentados recentemente pela OXFAM, organização não-governamental fundada em 1942 e que atua em mais de 90 países. No último ano, o património dos multimilionários mundiais aumentou 16%, de acordo com o mesmo estudo. É o nível mais elevado da história.
Desde 2020, a riqueza dos super-ricos aumentou 81%. Nesse mesmo período, vários países passaram a ser governados por partidos de extrema-direita, que defendem abertamente uma sociedade de castas. A riqueza de uns poucos e a pobreza de muitos expandem-se num mundo que se tornou terreno fértil para a disseminação do ódio e do preconceito. O que podemos fazer?
“O poder real não é democrático, como podemos continuar a contentar-nos com esta aparência de democracia? Tudo isto nos leva a algo surpreendente: a um planeta de ricos. Não é que não haja pobres, mas sim que o critério será a riqueza, não o conhecimento, nem a sabedoria, nem a sensibilidade”, disse José Saramago em 1998 ao jornal La Província, das Canárias. Nesse mesmo ano, no seu diário, o escritor escreveu o seguinte: “O que está em preparação no planeta azul é um mundo para ricos (a riqueza como uma nova forma de arianismo), um mundo que não podendo, obviamente, dispensar a existência de pobres, só admitirá conservar os que forem estritamente necessários ao sistema.”
O governo de Donald Trump tem planos para construir resorts de luxo na Faixa de Gaza, onde a população vem sendo dizimada, a par da destruição das suas casas e das condições mínimas para viver. “Está prevista a construção de 180 arranha-ceús, com intenção turística”, disse o genro do presidente dos Estados Unidos, Jared Kushner, ao apresentar o projeto de “reconstrução” do território palestino. A expressão do plano de construção de um mundo de ricos, a erguer, certamente, pelos pobres.