
Todos Contra Todos, um jogo a várias mãos
O mais recente trabalho publicado de Bruno Borges convoca os murais do PREC e as figuras que os habitavam para uma reflexão sobre o nosso presente comum.
Não será fácil encontrar a mais recente publicação de Bruno Borges nas grandes superfícies livreiras, mas vale a pena procurá-la em feiras de edição ou nesse imenso espaço que também é mercado chamado internet. Todos Contra Todos é um objecto composto por três elementos: um cartaz ou poster, um texto do autor e uma plaquete em formato A4 com desenhos a preto e branco. Esses desenhos representam figuras que se inspiram nos murais criados depois do 25 de Abril, no tempo do PREC, e criam uma ponte entre esse passado que herdámos (ou ajudámos a construir, conforme a geração a que pertencemos) e um presente em que, como se lê no texto do autor, a luta passou para o plano individual.
Esta publicação decorre de um trabalho anterior, uma exposição colectiva que o autor integrou na Zé dos Bois (ZDB), em Lisboa, em 2024, na celebração dos 30 anos de actividade desta galeria lisboeta, como contou Bruno Borges à Blimunda: «Na altura, recebi um telefonema da curadora Filipa Correia de Sousa, e acordámos que eu faria um conjunto de desenhos de propósito para a ocasião. A ideia de pegar na imagética dos murais do 25 de abril, veio da apropriação do mural do MRPP que eles têm na parede exterior do edifício. Pensei em trabalhar com isso, dando-lhe um outro sentido; em consonância com o tempo presente, mas também com as lutas internas da própria ZDB na altura.»
Às muitas lutas que atravessavam os murais do 25 de Abril juntou-se, então, um outro contexto que não foi só o da contemporaneidade, como nos explicou Bruno Borges, mas mais especificamente o da própria ZDB, que então enfrentava uma série de denúncias sobre as más condições laborais que ali se praticariam, contrariando a postura que se apregoava publicamente: «Eu já sabia, apesar de viver no Porto e acompanhar as coisas à distância, das queixas sobre o Naxo e de como funcionava a ZDB ultimamente. Eu conhecia o projecto desde o início, assisti ao seu crescimento e transformação; desde uma coisa associativa, com um espírito muito próprio de um grupo de amigos, até aquilo em que se tornou e das histórias que se contavam a propósito. Daí, de uma forma natural, relacionei a luta de classes com a vivência no meio artístico, a indústria cultural e a nossa existência coletiva. O Todos Contra Todos surgiu assim, chegando a equipa organizadora a ponderar o nome como título para a exposição. Não pretendi que este fosse um comentário crítico, vindo de fora, à instituição; e, por isso, nunca o quis tornar público – também, nunca me perguntaram nada –; mas esta foi, genuinamente, uma posição constrangedora e triste para mim, entendendo que estas são situações complexas que vão muito além de uma simples figura e da sua relação com o poder; e que existe sempre um outro lado. O problema para mim foi esse, ao aceitar participar na exposição, o de sentir que estava a escolher um dos lados e de não estar confortável nesse papel.

Os traços espessos, quase sempre saturados de tinta, remetem para essas pinturas colectivas que povoaram – a ainda vão surgindo – paredes um pouco por todo o país. Em cada página da plaquete que integra Todos Contra Todos, bem como no poster de fundo amarelo, figuras em posição de luta, protesto, conquista ocupam os seus lugares, umas vezes de mãos nuas, outras agarrando em foices, bandeiras e outros objectos. Bruno Borges já não consegue situar as diferentes etapas deste processo que o levou a criar a galeria de personagens que começou por existir nas paredes da ZDB e que, agora, podemos ver no papel impresso: «Acho que já devia ter a ideia mais ou menos definida à partida, antes de começar a desenhar. Muitas vezes, isso não acontece comigo; é quase sempre o desenho que me puxa numa direcção, que só depois é determinada pela leitura que eu próprio faço a partir dele. É muito possível que isso também tenha acontecido, num momento inicial, num outro formato. A coisa comigo não se passa a um nível racional, eu tenho primeiro de fazer acontecer e seguir uma metodologia que é sobretudo intuitiva no desenho; ainda que depois siga pensando naquilo. Também foi uma coincidência, na altura, estar a preparar a pintura de uns panos com a Oficina Arara, em que algumas destas figuras já apareciam, numa peça colectiva alusiva ao 25 de abril, e serem pensadas em simultâneo. A técnica é quase sempre a mesma, tinta-da-china sobre papel. Os desenhos finais existem no tamanho 70 x 50 cm – um formato que é relativamente banal em impressão. Comecei a desenhar nestes papéis na Arara, com muito espaço e imenso papel à disposição, diretamente com o pincel. Gosto de desenhar na vertical, para aproveitar os escorridos da tinta, como se estivesse a espichar uma parede. É uma coisa muito uga uga!»
Das paredes para o papel
No pós-25 de Abril, os murais eram uma forma de expressão colectiva, um modo de comunicação directa usado por partidos e movimentos. Foram também um veículo democrático para dar voz a quem quisesse agarrar num pincel e debater, anunciar, denunciar, reclamar – bastava que houvesse uma parede ou um muro. As figuras de Todos Contra Todos são elementos retirados desses murais, mas não é de uma simples deslocação que se trata. Na verdade a relação das imagens com quem as pode ver altera-se profundamente quando passamos de uma parede para uma publicação, o modo como podem ver-se essas imagens é muito distinto quando podemos folhear um conjunto de páginas e fazer desfilar estas figuras em vez de as vermos verticais, talvez no meio da paisagem urbana, num momento de passagem.
Quisemos perceber como se processou essa mudança, esse quase transporte da parede para o papel: «A primeira e a mais significativa alteração, foi o isolamento das figuras e a sua colocação frente a frente, algo que já estava presente na exposição dos desenhos originais», explicou Bruno Borges à Blimunda. «Esta foi uma das coisas que definiu o projecto. A publicação seguiu a mesma lógica, com a inclusão da totalidade dos desenhos no livro em página dupla, por pares – por falta de espaço e seguindo critérios expositivos, foi impossível de os ter a todos na galeria, ficando o conjunto integral da série apenas em livro. De qualquer maneira, a ideia do livro foi do Pedro Nora, com quem tenho trabalhado as minhas últimas edições; e é sempre tudo muito bem pensado, com ele.»

Nos murais que foram dando cor e voz às paredes no pós 25 de Abril, algumas figuras são identificáveis enquanto figuras-tipo e outras são facilmente conotáveis com este ou aquele partido, este ou aquele movimento, ou com uma determinada profissão ou geografia – um operário fazendo rodar uma engrenagem com uma chave, uma ceifeira no Alentejo, um pescador lançando as redes em Peniche. As figuras de Todos Contra Todos têm esta estranheza de não as conseguirmos identificar plenamente com essa época áurea dos murais políticos em Portugal, ainda que reconheçamos, aqui e ali, um gesto, uma ferramenta ou uma alfaia, uma pose, e, por outro lado, de nos parecer que podem ser figuras de agora, nossas colegas ou vizinhas. O reconhecimento não é exclusivo deste trabalho, uma vez que o traço de Bruno Borges tem essa potencialidade de, remetendo para uma figuração sem fisionomias marcadas e com formas sempre indisciplinadas no que toca a uma ideia de representação ou figuração anatómica, pertencer facilmente a qualquer época ou contexto.
Por outro lado, as figuras dos murais surgiam, normalmente, rodeadas de mais figuras, ou então , se apareciam isoladas, eram frequentemente figuras-símbolo. As figuras deste Todos Contra Todos são individuais, como se explica no texto que acompanha a edição, e estão isoladas, não parecendo ter grande vontade de dialogar umas com as outras. A crítica é explícita, e também ela merece referência no texto do autor que é uma das três peças desta edição. Cruzando esse texto com as imagens, impõe-se uma reflexão sobre este equilíbrio precário entre pessimismo e optimismo relativamente ao futuro, um movimento que ora empurra a leitura para uma falta de esperança que parece assumir que já nada conseguimos mudar e daqui já não saímos, ora nos leva a acreditar que uma crítica ao individualismo e ao fraco compromisso político que colectivamente vamos tendo talvez produza resultados. Isso mesmo perguntámos a Bruno Borges, que claramente não perdeu a esperança, embora também ele tenha dias… «Lembro-me de na altura passarmos pelo apagão, e esboçar um texto que descrevia um pouco da sofreguidão registada nas correrias às garrafas de água nas mercearias, no meio do caos de sermos surpreendidos com o corte da luz eléctrica; era tudo muito exagerado por mim, carregado de niilismo e desgraça. Mas essa visão de um fim apocalíptico, vejo-a sempre como algo capaz de motivar uma espécie de redenção e transformação profunda em cada um, ainda que eu próprio às vezes me sinta fortemente desesperançado. Há também um lado muito sarcástico, da minha parte, quando falo desses assuntos; é uma forma ligeira de os abordar, na realidade. Ainda que, olhando agora para a situação nos EUA e das nossas sociedades, a probabilidade de uma guerra civil seja um assunto muito sério, para além da metáfora. Esse ambiente já existe e é uma consequência do individualismo e do paradigma neoliberal; mas também do abandono da luta de classes pelas forças vistas como progressistas. Também fui muito sugestionado pela leitura de textos do Comité Invisível e da revista Tiqqun, mas tenho tendência para uma certa positividade – ainda que particular –, até porque tenho filhos.»

Todos Contra Todos circula por aí, sem espalhafato nem campanhas de marketing, desafiando quem com ele se cruzar a pensar sobre como vivemos e como gostaríamos de viver. Tendo nascido de uma exposição, a sua nova vida é totalmente autónoma e independente de outros suportes por onde estas figuras tenham passado. A excepção é esse imenso corpus de murais que se espalhou pelo país depois da Revolução dos Cravos e que, ainda que hoje se preserve sobretudo em fotografias e outros registos documentais, continua a dialogar com quem agora vive, tendo ou não atravessado esse período pós-revolucionário. E tal com os murais eram extáticos, precisando que quem os quisesse olhar se deslocasse até eles (mas, por outro lado, guardando um potencial de réplica e debate à distância, mesmo que as imagens nunca saíssem da parede), também Todos Contra Todos requer uma vontade explícita para ser encontrado. Talvez contactar o autor através das suas redes sociais, essa espécie possível de mural actual, seja a melhor forma de deitar a mão a este desfile de revolucionárias e revolucionários. E, sobretudo, de ceder às muitas reflexões que cada uma destas figuras, sozinha e em sequência, permite.