por Pedro Fernandes de Oliveira Neto
26 Fevereiro 2026

José Saramago e o ribombar da revolução
1. Até 1979, quando publicou a primeira das peças teatrais que conhecemos até agora,1 José Saramago era autor de uma obra esparsa e dispersa: o primeiro romance, Terra do Pecado, fora apresentado em 1947 pela editorial Minerva depois de o editor alterar o título original, A Viúva; o primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis, saíra em 1966 no âmbito da Coleção Poetas de Hoje, pela Portugália; um segundo livro do mesmo gênero, Provavelmente Alegria, em 1970, noutra coleção, a Horizonte de Poesia, da Livros Horizonte; um terceiro, O Ano de 1993, em 1975, pela editorial Futura.
Além disso, era o cronista de duas coletâneas organizadas por ele a partir de materiais veiculados nos jornais — Deste Mundo e do Outro (1971, Arcádia) e A Bagagem do Viajante (1973, Futura); parte de um conjunto de editoriais de quando foi diretor no Diário de Notícias sob o título de As Opiniões que o DL Teve (1976, saído numa coleção da revista Seara Nova); mais um romance, Manual de Pintura e Caligrafia (1977) e a antologia de contos Objecto Quase (1978), pela Moraes Editores.2
Quer dizer, pelas duas listas apresentadas, nessa altura, José Saramago era alguém que, de alguma maneira, chegava aos meios letrados, fosse pela presença na imprensa, fosse porque possuía um conjunto considerável (e variado) de livros, mas, mesmo assim, era ainda o despossuído de uma casa editorial capaz de apostar integralmente no seu talento e propiciar alguma garantia de estabilidade no ofício de escritor. É possível desenvolver interpretações diversas acerca da situação, mas talvez seja preferível nos fiarmos na irregularidade do mercado editorial em um país marcado por uma economia em ruína que afetava sobretudo o acesso dos leitores aos livros, uma muito restrita classe intelectual e um número galopante de analfabetismo, méritos, como sabemos, conquistados pela ditadura que se sustentou no poder por quase meio século.


Algo muda para Saramago depois de ver o romance com o qual despontaria, Levantado do Chão, recusado pela Moraes. A casa que ele talvez apostasse como seu possível teto passava por uma crise e com os dois livros do autor então editados sem vendas, decidiu não se arriscar na empreitada de publicar mais uma obra. Na altura, a Caminho, fundada em dezembro de 1975, foi a porta seguinte em que bateu o escritor. Telefona para a nova editora com a proposta de publicar A Noite, a peça de teatro escrita sob encomenda de Luzia Maria Martins para assinalar os cinco anos do 25 de Abril. É Zeferino Coelho quem atende o telefone e quem aposta em publicar o livro.
2. Um livro de teatro era, certamente, se não uma aposta desarrazoada, de risco. É verdade que começava a soprar algum fôlego novo no meio editorial e artístico, mas uma peça do género como objeto de leitura continuava a ser coisa de interesse (como é ainda hoje) para um número ainda mais restrito de leitores. O destino, no entanto, se quis outro. O texto encenado por Joaquim Benite e levado ao palco do Teatro da Academia Almadense pelo Grupo de Campolide em 6 de junho de 1979 — e já estamos à altura de sublinhar isto devido ao distanciamento temporal — ampliava um marco para o teatro em Portugal. Essa relevância é menos pela inovação — a crítica da época reiterava a concepção dramática aristotélica de Saramago e a representação realista de Benite3 — e mais pela reabertura de uma extensão das artes praticamente liquidada pelo regime4’; é também pela originalidade com que tratava um acontecimento recente e o mais marcante no século XX na história e sensibilidade dos portugueses: era a primeira vez que se colocava em cena, através do interior de um dos centros nevrálgicos do poder, o ambiente ditatorial e o desabrochar da Revolução dos Cravos.
A publicação de A Noite acontece em Abril de 1979, dois meses antes da encenação, ou seja, por um caminho inverso ao que se comum em textos do género. O sucesso nos palcos, graças a essa coincidência, respingou de alguma maneira no livro e contribuiu em parte para que o romance então recusado pela Moraes ganhasse as livrarias; também contribuiu para alguma afirmação do nome de José Saramago entre o público em sentido mais amplo. O Correio da Manhã noticia que em duas semanas de encenação mais de três mil espectadores foram ver A Noite, que, no mesmo ano, foi vencedora do Prémio da Associação Portuguesa de Críticos. Sabe-se que, enquanto a crítica mais especializada levantava elogios à obra, o Grupo de Campolide mobilizava os diversos setores da classe trabalhadora para o teatro com preços módicos e a promoção de debates abertos com o autor e o encenador.
3. A ação de A Noite desenrola-se no interior de uma redação de jornal durante a passagem de 24 para 25 de Abril. Dividida entre o modelo autoritário vigente em sinais de desgaste e o espoletar da liberdade advinda com a revolução que liberta Portugal da ditadura, a peça amplifica ainda as cisões internas a que o regime condenara os indivíduos e suas relações nos campos das ideologias, da moral e dos costumes — marcas talvez estabelecidas por um tempo ainda maior que o da grande noite que foi esse período. Basta observarmos, fora do texto teatral, a reprodução do mais tinhoso conservadorismo implicado em discursos e práticas de figuras públicas que, na cena portuguesa deste século, angariam a legalidade e a legitimação sob a defesa da liberdade de expressão e da defesa nacional; em sentido amplo, a permanência do bicho pernicioso desses elementos sustentadores dos governos autocráticos, erva daninha espalhada em toda parte.
Ao passo que o ribombar das máquinas a imprimirem as novas páginas da história anuncia o sucesso da revolução, a última cena de A noite não mobiliza o espectador com uma fantasia acerca dos possíveis de uma futura sociedade. É por efeito das limitações da própria história, podemos afirmar. Entre a história e a encenação constavam cinco anos de distanciamento, mas os ideais da Revolução ainda permaneciam frágeis e em risco de perecerem perante a sedutora máquina do poder — o testemunho disso, aliás, está na militância do próprio José Saramago nos editoriais do Diário de Notícias. Ou seja, a desconfiança em torno do porvir não é garantia para afirmar utopia como verificamos materializar-se em várias outras passagens da literatura saramaguiana em que a Revolução de 1974 ou outras extensões de valia libertadora aparecem: recordemos o dia levantado e principal de Levantado do Chão feito de euforia, celebração e melancolia; também o aberto sentido, em proporção melancólica, no desfecho de Ensaio sobre a Cegueira; ou o desfecho dramático e encerrado de Ensaio sobre a Lucidez. Isto é, o sentido que agora tão bem reconhecemos estava, de alguma forma, prenunciado em A Noite: a revolução não é um fim, mas passagem.5

Apesar de circunscrita em um contexto bastante particular, a peça se abre a discussões plenamente encontradas nas sociedades deste século no Ocidente, afinal, foi a partir da ascensão de novas mídias de sociabilidade e de comunicação que se reabilitaram ou se ampliaram os mesmos problemas encontrados antes nos médias: as distorções em nome dos interesses de quem divulga ou financia, a implantação da mentira como verdade, a informação como objeto de poder e a serviço de projetos escusos que novamente visam a opressão, o aprofundamento das cisões ideológicas que tem adoecido os sistemas democráticos ao redor do mundo, e os embates éticos com a tarefa de noticiar são alguns dos assuntos levantados em A Noite e agora vigentes.
O texto inaugural de uma relação das mais profícuas entre escritor e editor — a obra de José Saramago permaneceu com Zeferino Coelho até 2010, quando publicou o segundo volume de O Caderno, livro com parte das entradas para o blog que o escritor manteve entre 2008 e 2009 — ganhou, no apagar das luzes de 2025, no plano das celebrações dos 50 anos da Caminho, uma edição que reúne o texto de Saramago, fotografias de bastidores da primeira montagem e material de arquivo que remonta a recepção da peça.
As novas parcerias de José Saramago advindas com A Noite não se restringiram a editor e editora; vale sublinhar que, a propósito do quarto centenário da morte de Luís de Camões, outra vez o dramaturgo será interpelado para um novo trabalho. Que Farei com Este Livro? — o título feito da interrogação que o dramaturgo imagina para o seu Camões à procura de um destino para Os Lusíadas e que serve bem para ele próprio com Levantado do Chão, que, aliás, sai no mesmo ano da peça pela Caminho — é levado ao palco por encenação de Joaquim Benite pelo mesmo Grupo de Teatro de Campolide. Quanto ao destino, bem se vê, não é obra do acaso puramente, mas feito por aqueles que unidos sinceramente em torno de um propósito, o fazem acontecer. Nesse caso, bom propósito, coisa escassa num mundo de individualismos ou de uniões em favor de criações despropositadas.
Notas
- Sabe-se da existência da adaptação de uma novela de José Saramago — como se registra na capa do datiloscrito disponível mostrada a público em 2015 — que data do fim dos anos 1970; trabalho feito com o encenador Costa Ferreira. Intitulada O Fim da Paciência, a peça nunca foi encenada ou publicada. Segundo Pilar del Río, em depoimento para o Observador, trata-se da adaptação de um conto de Objecto Quase.
- Na década de 1990 soubemos da existência de Claraboia, um romance escrito depois do primeiro livro que chegou às mãos dos editores em 1953, mas não foi ignorado. Depois de reaver o datiloscrito, o escritor decidiu que, se publicado, este livro sairia apenas depois da sua morte. Claraboia saiu em 2011.
- Esses termos são de Tomaz Ribas na matéria publicada no jornal A Capital, em 16 de Junho de 1979.
- É o mesmo Tomaz Ribas, em outra matéria para A Capital, de 4 de Julho de 1919, que afirma: “se, por um lado, a feroz censura não permitia que em tais publicações [as dedicadas ao teatro] fossem apresentados, divulgados e discutidos quer os grandes problemas em que o nosso teatro se debatia (e o maior e mais nefando e nefasto era a própria censura), quer os novos caminhos e as novas correntes do teatro mundial, por outro lado, a vida e as actividades teatrais portuguesas eram tão pobres e, salvo uma outra honrosa excepção, tão confrangedoramente desinteressantes que não proporcionavam nem matéria nem motivo para a existência de publicações da especialidade.”
- Apesar de não escrever sobre a revolução, José Saramago se interessou diversamente pelo tema. No espólio do escritor patente na Biblioteca Nacional, por exemplo, é possível consultar um conjunto de anotações que resultariam em um romance que daria conta do 5 de Outubro, ou a revolução organizada pelo Partido Republicano Português que destituiu a monarquia constitucional em Portugal. Ao 25 de Abril, o escritor recorre em várias de suas obras, principalmente as que estão mais próximas desse contexto. É o caso, além de Levantado do Chão, de O Ano de 1993 e de Manual de Pintura e Caligrafia. Quase sempre é figurado o novo tempo, o porvir, mas o imperativo é o retorno (caso de 1993) ou um futuro que se abre, como dissemos, melancólico. Há uma consciência da revolução como teatro, que depois da catarse se regressa ao banal da vida, ou ainda uma desconfiança no destino revolucionário, se este não repetiria — como testemunhamos — os passos do poder destituído.
Pedro Fernandes de Oliveira Neto é professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brasil). É autor de Retratos para a Construção do Feminino na Prosa de José Saramago e de artigos publicados em livros e revistas de diversos países. Coordena o grupo de pesquisa Estudos sobre o Romance e a Coleção Estudos Saramaguianos. É diretor, com Miguel Koleff, da Revista de Estudos Saramaguianos.