Histórias Zepelin

Tarântula
Eduardo Halfón
Dom Quixote
Tradução de J. Teixeira de Aguilar
Desde Saturno, publicado em 2003 (e nunca traduzido em português), que o guatemalteco Eduardo Halfón vem escrevendo romances que são como peças de um imenso quebra-cabeças. Tarântula é a peça mais recente desse dispositivo literário que se espalha em múltiplas direcções, recuperando histórias de família, cruzando memórias verdadeiras e falsas, convocando reflexões sobre pertença, identidade e herança, sempre num equilíbrio funâmbulo entre ficção e realidade. Ainda assim, e como todos os outros livros do autor, a leitura é autónoma.
Por estas páginas passam as memórias de infância do narrador quando participa, com o irmão e por imposição dos pais (do pai, sobretudo), num acampamento para jovens judeus na Guatemala. Neste altura, a família já vivia nos Estados Unidos da América há algum tempo e o regresso à Guatemala seria um modo de reanimar as raízes que, se para os pais do narrador eram essenciais, para o pequeno Eduardo surgiam como coisa a afastar:
«Embora eles nunca mo tenham dito, estou certo de que parte da sua argumentação para nos mandarem naquele final de ano para um acampamento nas montanhas da Guatemala foi não só voltar a aproximar-me do judaísmo – do judaísmo deles – como também voltar a aproximar-me de um país que, três anos depois de o ter abandonado, eu considerava já estrangeiro e alheio.» (pg.14)
No centro da narrativa está a tentativa de verbalizar, dar estrutura e reconstruir de forma lógica o que terá acontecido nesse acampamento: uma encenação brutal e aterrorizante do que seria a vida num campo de concentração nazi. As crianças ali presentes terão sido arrancadas da cama, interrogadas, obrigadas a praticar várias acções humilhantes, encerradas em celas improvisadas sempre que não cumpriram as ordens, identificadas com uma estrela amarela no braço, sujeitas à fome. Eduardo, depois de ter visto uma suástica ganhar vida no braço de um dos monitores do campo – e de tal modo ganhou vida que os seus braços vis se transformaram em patas e tudo ganhou movimento – e depois de ter sido sujeito à sua quota parte de violência, conseguiu fugir. É a partir desse episódio que se vão puxando os outros fios deste romance e compondo uma teia tão frágil como as certezas que o narrador apresenta para, logo depois, as confinar ao terreno escorregadio da memória e da ficção – duas categorias muitas vezes equiparadas na obra de Halfón.
A esse propósito, o narrador atribui ao escritor cubano José Lezama Lima uma ideia sobre histórias que se vêem passar como se vê passar um zepelim, notando, alguns parágrafos depois, que talvez a ideia não seja desse escritor, o que é pouco relevante. Independentemente de quem lhes inventou o conceito, as histórias zepelim teriam essa capacidade de deixar quem as escuta num espaço onde a crença e a desconfiança convivem sem conflito e se Lezama Lima não falou sobre isto, diga-se que Eduardo Halfón será um candidato muito credível para a autoria do conceito:
«Meia hora mais tarde, enquanto comia umas bolas de carne e alcaparras (…), comecei a contar a um grupo de bolseiros e académicos alemães boquiabertos aquela vez em que, aos treze anos, tinha sido feito prisioneiro num falso campo de concentração nazi. E fiquei a ver quão alto, ainda longe, voava um zepelim.» (pg.111)
À semelhança dos bolseiros e académicos alemães, quem atravessa as páginas de Tarântula terá de enfrentar esse mesmo conflito. A história do acampamento e do que nele terá acontecido é simultaneamente verosímil e inaceitável e o mesmo se diga dos vários outros episódios que integram este livro e todos os outros do autor. Mais do que uma sentença sobre a verosimilhança, a leitura da obra de Halfón convoca uma atenção aos modos possíveis de reconstruir a memória e dela fazer matéria-prima do presente. Os alçapões que surgem no processo são inevitáveis, bem como os caminhos que parecem ir dar a algum lugar e acabam, de repente, numa parede. Na verdade, a obra total de Eduardo Halfón é mais labirinto do que quebra-cabeças e a imagem dos fios, convocando Ariadne, mas também a teia que uma tarântula-suástica poderia tecer, é a única rede de segurança disponível.