Já lá chegámos?

Da Noite Para o Dia
Sofia Neto
Chili Com Carne
Depois de várias bandas desenhadas curtas, dispersas em publicações colectivas, e outras de maior fôlego, como Cicatriz (Polvo Edições), Sofia Neto regressa aos livros com este Da Noite Para o Dia, uma narrativa que coloca a marca da ficção científica numa série de cenários e situações que reconhecemos do nosso quotidiano. Essa é, aliás, uma das vertentes mais inquietantes deste livro, o facto de acompanharmos um enredo que tem no centro um dispositivo tecnológico até agora impossível de aceitar no plano da realidade que conhecemos, o que o arruma no espaço e nas regras da ficção científica, e de, ao mesmo tempo, os acontecimentos que estruturam a acção, bem como os dilemas, as conversas e alguns debates éticos das personagens em torno do aparelho nos serem absolutamente familiares.
O aparelho, então, é um dispositivo capaz de alterar as memórias da pessoa em que é aplicado, modificando-lhe comportamentos e interferindo com a identidade. Ana inventou o dispositivo, mas não sabe exactamente como funciona e, principalmente, que efeitos concretos terá em cada pessoa. Ainda assim, acredita que os efeitos serão positivos para o mundo e usa esse dispositivo a mando de outras pessoas, que a contratam para aplicá-lo em pessoas terceiras que Ana não faz ideia quem são. A ficção científica é, agora, distopia, sem margem para dúvidas, e uma das que se parece assustadoramente com o mundo e que vivemos, trabalhando para empresas que subcontratam outras empresas, numa matrioska que faz com que não saibamos a quem temos de prestar contas e a quem cabe pagar o nosso salário, ou levando a vida diariamente acreditando que o nosso impacto no mundo será positivo, sem que tenhamos nenhum indício de que essa crença seja mais do que uma ilusão…
O traço de Sofia Neto desenvolve-se num registo realista, trabalhando com detalhe e mestria o movimento – quer anatómico, o dos gestos quotidianos ou extraordinários das personagens, quer o da deslocação entre lugares, que podem ser divisões de uma casa, ruas, cidades, paisagens – e os cenários. Essa característica reforça a inquietação produzida pelo enredo, situando tudo o que acontece numa familiaridade que assusta e que faz deste livro um extraordinário exercício de reflexão sobre o presente que partilhamos e o futuro que antevemos, apesar de tantas incógnitas.
Da Noite Para o Dia é um novelo com muitos fios emaranhados, espelhando o mundo e a sua complexidade – que quase nunca se apresenta ordenada ou bem estruturada, como por vezes desejamos. Quando um homem contrata Ana para usar o dispositivo que inventou em si próprio, com indicações para nunca recuar, mesmo que os efeitos surjam de modo visível e evoluam sem controlo, as interrogações éticas e morais surgem em catadupa, mas nem isso impede o procedimento de avançar, ou, melhor dito, nem isso impede Ana de avançar com o procedimento. Daí à leitura desencadear um questionamento sobre se o conteúdo destas pranchas é assim tão distante como queremos crer da realidade em que existimos, trabalhamos e asseguramos meios de sobrevivência é um salto. Demasiado curto para que a etiqueta de ficção científica nos proteja.