
Grande Sertão: Veredas, 70 anos a inventar o mundo
Foi médico, diplomata e, cumprindo aquele que parecia ser o seu verdadeiro desígnio, escritor. João Guimarães Rosa publicou vários contos e novelas, mas bastou-lhe um romance, Grande Sertão: Veredas, para alterar sem apelo a literatura universal.
Cumprem-se este ano sete décadas sobre a primeira edição de Grande Sertão: Veredas, o livro com que João Guimarães Rosa mudou para sempre a face, os contornos e as possibilidades da literatura em língua portuguesa. Em diferentes pontos do Brasil, as comemorações começaram há meses e estendem-se pelo menos até ao final deste ano. No Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, uma série de conferências e debates assinalaram a efeméride, contando com a participação de Milton Hatoum, Eduardo Giannetti, Jeferson Tenório, Socorro Acioli e Heloisa Starling. Bibliotecas, teatros, museus, mas também espaços de associações, colectivos e outros lugares mais informais têm acolhido conversas, encenações e exposições várias sobre este livro. Em Portugal, o aniversário dos 70 anos da primeira edição de Grande Sertão: Veredas foi assinalado este mês entre Montemor-o-Novo, Lisboa e Loulé com sessões de narração oral e mesas-redondas que tiveram a presença de Dôra Guimarães e Tiago Goulart, do Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, e Diomira Faria, professora na Universidade Federal de Minas Gerais e curadora da exposição Sertão Mundo. Também em Portugal, a Companhia das Letras prepara-se para distribuir nas livrarias uma nova edição da obra-prima de Guimarães Rosa, com a capa lendária desenhada por Poty Lazzarotto, numa criação conjunta com o próprio escritor, e com prefácio inédito de Clara Rowland, para além de vários extras como reproduções de manuscritos e uma cronologia biográfica.
O sertão de Guimarães Rosa é um labirinto, um emaranhado de lugares, caminhos e desvios em permanente construção, e isso mesmo se reflecte na estrutura do romance. É Riobaldo, antigo jagunço e conhecedor profundo das terras sertanejas, quem conta a sua própria história a um interlocutor cuja presença é apenas a de um ouvinte. E o que ouve fala das mudanças na vida de Riobaldo, que abandona a vida de jagunço para se dedicar a um quotidiano onde a religiosidade é presença forte, na companhia da sua mulher, Otacília, e com a orientação espiritual do seu compadre Quelemém. A narrativa de Riobaldo não se faz em linha cronológica recta, e acompanha-se de uma miríade de reflexões, elementos narrativos que nos permitem perceber questões sociais, políticas e filosóficas, e uma dúvida constante sobre a existência ou inexistência do diabo, figura tutelar deste monólogo e elemento de tensão permanente na trama, devido a um suposto pacto que o protagonista terá feito numa encruzilhada, muito tempo antes de contar a sua história.
O enredo do livro não é tão complexo como a fama da obra levará a crer, mas Grande Sertão: Veredas partilha com os grandes monumentos literários a particularidade de inventar um universo, uma linguagem, uma consciência, sendo aí que reside a sua complexidade. O relato que lemos nestas quase quinhentas páginas é a voz de Riobaldo, mas é também o seu pensamento vagando com rédea solta, as suas inquietações, o que escuta, vê, sente, pensa, tudo acontecendo em simultâneo. É um imenso monólogo cujo fim físico do livro não parece conseguir encerrar, e talvez por isso continue a ecoar, sete décadas passadas, nas meninges de quem o lê.
A complexidade da linguagem e o modo como Guimarães Rosa a trabalha, erguendo uma oralidade que nada tem de espontâneo e criando diferentes registos e modulações em função dos episódios e dos ritmos narrativos, é um dos elementos marcantes deste livro. Essa característica é notória desde o início da narrativa e talvez a sua intensidade nas primeiras oitenta páginas do livro, a secção em que Riobaldo conta vários episódios da sua vida de modo desorganizado, cruzando-os com a obsessão pela existência do diabo, seja o motivo que explica o epíteto de “difícil” aplicado a este romance. A partir daí, como apontam vários especialistas na obra de Guimarães Rosa, a narrativa estabiliza, de certo modo. Quem se aventura neste livro descobre, portanto, uma máquina textual que começa por parecer desgovernada, até se perceber que esse desgoverno é apenas o modo de Riobaldo reconstruir a sua história para quem o escuta. Como todas as histórias que contamos sobre nós, a desordem, a divagação e o delírio são elementos inevitáveis, e Riobaldo terá marcas linguísticas que o colocam numa determinada região brasileira, mas a sua fala e o modo de tentar olhar para si próprio é de uma universalidade cristalina. A dada altura, diz ele: «Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não.» (pg.154) A memória sempre em reconstrução, algo que Guimarães Rosa sublinha para a eternidade neste livro.
O experimentalismo da linguagem, a abordagem de temas filosóficos num cenário de rudeza telúrica e violência humana, a descrição do amor reprimido de Riobaldo por Diadorim – e a revelação sobre a verdadeira identidade deste outro jagunço, presença constante no relato de Riobaldo – ou a conversão do protagonista a uma vida recatada e espiritual são elementos definidores de Grande Sertão: Veredas. A novidade da sua abordagem estará nos múltiplos detalhes narrativos e estilísticos que saltam à vista a cada página, mas é na constante expansão da ideia de romance, de ficção e de narrativa que o livro de Guimarães Rosa se torna um marco tão fundamental e tão fundador. As adaptações cinematográficas ou televisivas de que foi objecto confirmam isso mesmo, alcançando a narrativa dos factos sem conseguirem dar conta da torrencial experimentação que o romance revela.
Sem marcas da literatura regionalista, num edifício literário ao qual não é exagerado aplicar o adjectivo genial, Guimarães Rosa criou aquela que talvez seja a mais intensa e torrencial alegoria do Brasil. E fê-lo com consciência, suportando sem preocupação a fraca recepção crítica e de público que o livro começou por ter. O que fez, permanece – e não será arriscado dizer que permanecerá – como uma das grandes obras da literatura em língua portuguesa. Tudo tem mistérios, como diz Riobaldo, e Grande Sertão: Veredas confirma-o sem margem para dúvidas. Setenta anos depois, o espanto e o deslumbramento continuam.