Estante Andreia Brites 15 Setembro 2026

Pirilampo 
Gonçalo Viana
Orfeu Negro

Com as suas sobreposições geométricas e as cores fortes, Gonçalo Viana cria mosaicos que ligam texto e imagem numa narrativa poética e introspectiva sobre o poder da imaginação ao longo da vida. Um detalhe importante e incomum é o facto de a cronologia não ser linear. Quando a história começa, a protagonista explica como protegeu a imaginação, como a guardou para evitar perdê-la. Observando a ilustração, o leitor não se apercebe que a rapariga já é crescida. Só nas páginas seguintes, quando texto e imagem dão voz à descrição da infância da menina, é que o leitor se questiona e, depois, resolve o conflito narrativo. Esta estrutura não simplifica a leitura mas permite avançar para a idade adulta assinalando uma rutura: a imaginação perde-se quando crescemos, temos de estar atentos e protegê-la, para que não desapareça, à imagem do exemplo da menina/ mulher/ idosa que agora encontra outra forma de imaginar, à medida que a realidade se torna menos concreta, mais distante. A mensagem do álbum não se fica apenas pela apologia da imaginação como algo que nos faz criar ou ser felizes. Dá mais um passo em direção a um modo de viver e de resistir, sobretudo perante a demência. É uma viagem interior, em que o pirilampo se traduz na fragilidade, delicadeza e beleza da imaginação. E na qual é possível vários tipos de leitores participarem, explorando mais ou menos linhas de leitura.

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