
O passado ainda aqui está
A propósito do filme brasileiro O Agente Secreto, uma reflexão sobre o passado e os seus tentáculos a partir do grande ecrã.
O mais recente filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, tem circulado por salas de cinema de muitos países, suscitando discussões sobre a ditadura brasileira e as suas várias heranças, mas também sobre o cinema que hoje se faz no Brasil e o reconhecimento da sua universalidade.
Na revista colombiana El Malpensante, o crítico Juan David Almeyda Sarmiento assina uma longa recensão sobre o filme, um olhar estrangeiro perante a criação do realizador brasileiro, com a particularidade de ser um olhar que conhece bem o contexto sul-americano em que a ditadura brasileira e várias outras cresceram e se firmaram na segunda metade do século passado, conhecendo igualmente os ecos que tudo isso continua a distribuir por um presente que tantas vezes se nos apresenta como desligado do passado, como se tal fosse possível: «(…) O agente secreto es una poderosa síntesis de distintos elementos estéticos y temáticos en la que se encarna una visión de lo que sería el cine político brasileño. Inicialmente, es una alegoría clara al cinema novo que surgió en dicho país, así como a la fuerte tensión paranoica que se puede ver en el thriller político de los años setenta –como El conformista de Bertolucci– para poder, finalmente, advertir una fuerte mirada reflexiva frente a la memoria, algo propio del cine contemporáneo. La cinta no es un simple retrato de una persecución del pasado; dicho pasado funciona como un modo para poder diagnosticar heridas del presente. Por eso la función de las grabaciones es fundamental, ya que son ellas los documentos que sirven de puente espectral entre la historia en el pasado de Marcelo/Armando y el presente que requiere respuestas.»