Mais exigência menos facilitismo
«E agora quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar.» Com esta frase terminava José Saramago o seu discurso de agradecimento do Prémio Nobel de Literatura, a 10 de dezembro de 1998, em Estocolmo.
A Fundação José Saramago, instituição criada pelo autor com o propósito de promover a literatura, defender os direitos humanos e o ambiente, assume este princípio, de que são muitas e muitos autores, de hoje e de ontem, os que constroem a literatura de um país e de uma língua.
No entanto, como amplamente divulgado nos últimos dias, há uma consulta pública aberta até ao dia 28 de abril, lançada pelo Ministério da Educação, para alterar o programa das Aprendizagens Essenciais nos ensinos básico e secundário. Uma das alterações propostas é a de deixar ao critério das escolas/professores do 12º ano a escolha entre três romances: dois de José Saramago («Memorial do Convento» e «O Ano da Morte de Ricardo Reis») e um de Mário de Carvalho («Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde»). Até agora, os professores poderiam optar entre os dois livros de José Saramago acima referidos.
Se a alteração for aprovada, poderá acontecer que estudantes portugueses venham a terminar a sua formação sem ter tido contato com a obra do (até hoje) único Prémio Nobel de Literatura em língua portuguesa. Como já afirmámos em comunicado, Mário de Carvalho é um autor admirado e é acertada a decisão de incluir um dos seus romances na lista de obras de leitura “obrigatória”. A nossa posição será sempre a de agregar, de incluir, como se lê no referido comunicado, neste caso, de juntar a José Saramago o nome de Mário de Carvalho ou de outros autores que passem a ser de leitura obrigatória pelos alunos. Numa entrevista a um canal de televisão a propósito deste assunto, Gonçalo M. Tavares referia que o que deveria ser questionado era o facto de em Portugal ser obrigatória a leitura de apenas um romance por ano letivo. Comparando com outros países, Portugal surge como um dos países em que esse número é o mais baixo, quando em países do Leste europeu é de 10 ou de 5, em Espanha. Num momento em que o mundo, o poder económico e político, nos colocam desafios cada vez mais prementes e difíceis, a leitura, a capacidade de analisar, de entender, de colocar em perspectiva, torna-se ferramenta indispensável. E a leitura, mais do que repositório de tantos lugares comuns, é essencial para que se formem cidadãos mais atentos, mais livres, mais capazes de enfrentar a desinformação e a mentira, mais preparados para resistirem e se posicionarem. Quando analisamos a forma como a cultura é desvalorizada, em Portugal e em tantos outros países, não podemos deixar de assumir que é propositada esta forma de a tratar como algo acessório e não central na sociedade. Os cidadãos que não leiam, que não façam da cultura um hábito permanente, aceitarão mais facilmente o discurso do medo, da inevitabilidade, da prepotência, da barbárie…
Por tudo isto, bem-vindo Mário de Carvalho, bem-vindos todos os outros autores que se juntem a José Saramago numa lista que agregue, que some em vez de colocar em opção. Façamos desta proposta um passo adiante para que em breve passe a ser de cinco ou de dez o número de livros de leitura obrigatória por ano. A exigência trabalha-se, o facilitismo destrói.