A literatura a quem a trabalha

Asian Workers Stories
Hardball Press
VVAA (org. Luka Lei Zhang)
O cânone literário dos últimos séculos fez-se mantendo à distância quase tudo o que não fosse escrito por uma elite – não necessariamente económica, mas certamente cultural, com acesso a leituras já de si canónicas, escolaridade e pelo menos algumas condições para o exercício da escrita. A excepção, reservada aos estudos literários e institucionalizada apenas com o Romantismo, permitia que se abordassem certas formas de literatura oral, o romanceiro e outras formas ditas populares, mas sempre mantendo uma “distância de segurança”. Só com o século XX já avançado, quando as fronteiras disciplinares começaram a mostrar sinais de ruptura numa tentativa de perceber o mundo de modo mais completo (e complexo), essa abordagem se mostrou insuficiente. Atravessando rapidamente a discussão dos apocalípticos e dos integrados que Umberto Eco dinamizou e as teorias e contra-teorias que se lhe seguiram, não é preciso ostracizar autores e livros ditos canónicos, mas valerá a pena reconhecer que há mundo para lá desse salões frequentados sobretudo por homens brancos e instruídos, europeus ou generosamente exportados, à boleia de algum empreendimento grandioso, para as terras entretanto ocupadas noutros pontos do globo. Claro que em alguns desses pontos, outros cânones já existiam, mais antigos ou grandiosos, e basta pensar no território a que hoje chamamos China, ou na Índia, mas se nem esses trazemos à colação com a frequência que deveríamos, que abertura nos resta para outros horizontes?
Não havendo abertura, já se sabe, há quem force os portões. Asian Workers Stories, uma antologia de textos organizada e editada por Luka Lei Zhang para a Hardball Press, tem esse potencial e só podemos recomendar a sua tradução para o português, mesmo sem grande esperança de que alguma editora queira abrçaar tal empreendimento… Os textos aqui reunidos são de autores de muitas origens nesse vasto território que é a Ásia, da China à Indonésia, passando pelo Bangladesh, Singapura, Tailândia ou Filipinas. Os estilos variam, do realismo intenso à metáfora, da narração de histórias antigas convocadas para o presente ao registo doloroso de quotidianos e sonhos. Variam igualmente os cenários, entre fábricas, campos agrícolas, casas que nunca pertencerão a quem escreve, estradas ou outras vias que se percorrem em busca de alguma coisa que parece nunca se consumar. Entre a ficção e a não-ficção, há narrativas que impressionam pela delicadeza da linguagem em confronto permanente com o que descreve, como acontece na história “The Grave”, de Hamiruddin Middya. Outras, sobretudo as ambientadas em fábricas, como “A Night on Sun Island”, de Wan Huashan, impõem um ritmo que acompanha a repetição das tarefas, cortando-o, subitamente, com a densidade trágica e desorganizada que vai correndo em fundo no pensamento de quem narra.
Na não-ficção, destacam-se os relatos quotidianos como o de Md Sharif Uddin, em “Stranger Life in Singapore”, ilustrativos do desespero permanente, mas também do modo como estas vidas que se arrumam em dormitórios sobrepovoados e insalubres de onde saem apenas para a jornada de trabalho intenso e mal pago são a base que sustenta cidades tantas vezes apresentadas como exemplares (Singapura, neste caso, que não é caso único). Nem todas as narrativas são extraordinárias no modo como se estruturam e trabalham a linguagem, algo expectável em qualquer antologia feita de vários autores, mas mesmo nesses casos, como na história de Wiset Sanmano, de uma inocência quase pueril no desenlace, a voz que assume a palavra num terreno que teria tudo para não a escutar não deixa de ser poderosa.
O que une estes textos e lhes dá coerência quando agrupados deste modo são as condições de vida das personagens (reais ou ficcionadas), os direitos que lhes são negados diariamente e o facto de essas condições serem o garante do funcionamento de um sistema mundial – do qual nós, os que lemos à distância estes textos agora reunidos num volume que podemos comprar num dos grandes retalhistas do comércio on-line, somos também beneficiários, com maior ou menor consciência disso. Une-os, também, esse gesto assumido de tomar a palavra, reclamar uma fala e uma escrita e dar-lhes um lugar neste espaço global a que já deixámos de chamar pólis. Nessa unidade, que justifica plenamente uma antologia, é no entanto a diversidade que se impõe. Confrontada com a complexidade das personagens e das suas caracterizações psicológicas, as reviravoltas de alguns enredos e sobretudo as formas múltiplas de usar a linguagem, ricas em polissemias, modos discursivos e referências históricas, culturais e sociais, a leitura deste livro não pode ficar refém de qualquer enlevo classificatório que arrume os textos numa categoria sociológica e ignore que não só têm um valor literário intrínseco, como esse valor integra o contexto em que nasceram.
A realidade da exploração laboral de trabalhadores, migrantes ou não, não é nova, naturalmente, e não se restringe à Ásia, como bem sabemos por cá. Será recente, no entanto, esta consciência global partilhada pelos milhões que se vêem obrigados a abandonar os seus territórios de morada para sobreviverem, entrando à força num sistema de exploração intensiva que começa por ser a sua própria, estendendo-se aos recursos naturais e estruturais, cujos esgotamento e destruição intensificam a necessidade de mais pessoas abandonarem os sítios onde vivem para sobreviver. É uma roda da fortuna viciada, deixando sempre de cabeça para baixo quem já fugia desses lugares a que chamamos Sul global. Que essa consciência partilhada seja assumida na primeira pessoa e transformada em literatura tem algo de novidade nestes últimos anos. Portanto, se a realidade que origina estes textos não é estruturalmente nova, os seus contornos são-no, de certo modo. A migração de pessoas que fogem da devastação causada pela crise climática, das guerras e da pobreza extrema (tantas vezes consequência do clima e dos conflitos bélicos, ainda que não exclusivamente) é, com a escala que hoje conhecemos, algo novo, e tudo indica que tenderá a intensificar-se. Não fará sentido, por isso, comparar estes textos com outros cuja realidade e contexto de produção se encontram a milhas de distância, aqui bem perto de nós, mas se tal exercício contribuir para definir algumas linhas quanto à importância do que aqui se escreve, lembremos o neo-realismo, para irmos ao cânone buscar algum ponto de apoio, pelo menos enquanto do cânone ainda resta algo que mantenha o seu sentido perante o desconcerto do mundo. A diferença estrutural, para lá de todas as diferenças de contexto, é que, ao contrário do que acontecia com a esmagadora maioria dos escritores neo-realistas, as pessoas que assinam estes textos não estão a observar realidades laborais, sociais e humanas profundamente trágicas, usando-as para criar narrativas que procuram dar voz a quem habitualmente não a tem. Quem assina os textos desta antologia vive, ou viveu até há pouco, estas realidades e é a sua voz que se faz ouvir em cada frase, mesmo quando se trata de ficção.
Talvez o cânone não estivesse preparado para isso e talvez valha a pena recuperar o velho Marx, mais que não seja para compreender que, à semelhança dos trabalhadores que perdiam a saúde, a dignidade e muitas vezes a vida nas fábricas europeias do século XIX, estes trabalhadores que tomam a palavra em cada um dos textos de Asian Workers Stories também parecem ter pouco a perder para além das suas correntes.