Estante Andreia Brites 23 Março 2026

Musgo
David Cirici
Fábula 
Tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra

Conhecemos Musgo logo na capa, embora só na parte final da narrativa fiquemos a saber que é esse o seu nome. O cão preto assume a dupla condição de protagonista e de narrador de uma aventura involuntária e muitas vezes dolorosa. O seu olhar vai revelando os acontecimentos com muitos vazios e algumas questões, precisamente por ser a sua perspetiva de cão aquela que oferece ao leitor. Afirma em várias situações desconhecer objetos, não compreender comportamentos ou reações dos humanos, e não apresenta conceitos básicos que facilmente nos contextualizariam. Essa é a proposta do livro, é esse o pacto ficcional. Por um lado, a personagem distancia-se dos humanos e ajuíza-os, desafiando o leitor a pensar criticamente a partir de um outro foco, por outro lado obriga-o a fazer várias inferências, sobretudo entre o que o texto vai dizendo e o seu conhecimento do mundo. Há uma estrutura assente em paráfrases para serem descodificadas e sintetizadas. 
A história começa quando Musgo se vê bruscamente separado dos donos, em especial das duas crianças com quem vivia, devido a uma explosão que destruiu a sua casa. A partir daqui, vive na rua, encontra um grupo de cães. Juntos, lutam por sobreviver. São perseguidos na cidade, são capturados para lutarem contra um leão e vão parar a um campo de concentração. Ao longo do livro confirma-se que há uma guerra e que aquela região foi atacada. Depois, chegamos ao tempo histórico. O final feliz não escamoteia a tristeza, o sofrimento e as perdas que ficaram pelo caminho. Valoriza, igualmente, a determinação, a generosidade, a amizade e a esperança. 

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