
O verão dos mergulhos
Sara Stridsberg
Sara Lundberg
Orfeu Negro
Tradução de Ana Diniz
“Enquanto esperamos por uma coisa, acontece sempre outra.” A frase aparece duas vezes, com ligeiras diferenças, no relato da protagonista. E marca o tom do álbum, que explora a doença mental através da experiência de uma criança. Todo o texto se apresenta poético, quase onírico, apesar de narrar um momento difícil. Quando criança, a protagonista visita o pai, internado num hospital devido a uma depressão profunda. Ali, faz amizade com outra paciente que ensaia natação no jardim. A espera da criança é uma forma de crença, de resistência à situação do pai. A mãe está presente, mas não sempre, e dela nada se diz. Também não se tecem juízos sobre a condição da rapariga com quem passa os dias, enquanto o pai se recusa ou está impossibilitado de a ver. Num diálogo, a criança pergunta à rapariga se também está doente, ao que esta lhe responde que não. E a relação das duas acontece sem mais questionamento.



O leitor pode, ou não, acreditar que tudo está bem, mas o que importa é que a menina encontra em Sabina uma companheira de brincadeira e um consolo emocional. No final da narrativa, o pai regressa a casa. “O meu pai nunca mais foi muito alegre, mas teve uma boa vida, ainda assim. Algumas pessoas nunca são alegres. Por mais que se faça, estão sempre tristes. Às vezes, tão tristes que têm de ficar no hospital até a tristeza passar. É só isso.” A lucidez desta constatação não retira esperança à vida, trata-se de uma aceitação e de um convite a viver de acordo com o que acontece. “Não sei se a Sabina conseguiu chegar ao mar. Mas nunca me esquecerei de que ela foi minha amiga naquele verão em que o meu pai não tinha vontade de viver.”
É raro vermos o tema da doença mental abordado num álbum ilustrado de receção infantil. Neste caso, o tema não desloca o livro para destinatários mais velhos, precisamente porque a voz que o narra é a da própria criança. A ilustração contribui para dar forma a um universo onírico, naïf, leve, com grandes planos dos rostos intercalados com os espaços e movimentos dos corpos. A ausência de contorno, o contraste das cores e a gradação da paleta compõem cenários e emoções. Sem subterfúgios ou eufemismos, esta não é uma história violenta ou, ao invés, enganadora. É a assunção de uma normalidade num contexto adverso, como tantas vezes acontece. E pode ajudar os leitores a sentirem-se representados, a encontrarem um eco e um espaço de diálogo, ou a melhor verem algo que lhes é estranho. Sejam adultos ou crianças.