Editorial 3 Março 2026

Feminicídio e a hora dos homens agirem

No dia 4 de fevereiro passado, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, assinou um decreto de criação do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio. A inciativa, que envolve os Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo do país, visa combater um mal que está presente em todas as classes sociais, faixas etárias, níveis escolares e raças: a violência contra a mulher.

“Não basta não ser um agressor. É também preciso lutar para que não haja mais agressões. Cada homem desse país tem uma missão a cumprir”, disse Lula durante a cerimónia de anúncio do Pacto. “É preciso dizer alto e bom som: as mulheres estão conquistando cada vez mais espaços de liderança no mercado de trabalho e vão conquistar ainda mais. Por justiça e por merecimento. Lugar da mulher é onde ela quiser estar”, completou.

Em julho de 2009, José Saramago escreveu um texto no blogue que mantinha em que falava justamente da necessidade do maior envolvimento dos homens no combate à violência de género. “É o problema das mulheres, diz-se, e isso não é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável cobardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica”, escreveu.

O escritor terminava o seu texto com um apelo à participação dos homens nas futuras manifestações contra o Feminicídio. “Talvez 100 000 homens, só homens, nada mais que homens, manifestando-se nas ruas, enquanto as mulheres, nos passeios, lhes lançariam flores, este poderia ser o sinal de que a sociedade necessita para combater, desde o seu próprio interior e sem demora, esta vergonha insuportável. E para que a violência de género, com resultado de morte ou não, passe a ser uma das primeiras dores e preocupações dos cidadãos. É um sonho, é um dever. Pode não ser uma utopia.”

Seja nas manifestações pelo Dia da Mulher, seja no dia a dia, é necessário que a parte da sociedade responsável por este problema se responsabilize. É preciso que os homens se envolvam mais no combate à violência de género. É preciso que se ensine, aos pequenos e aos maiores, que está nas mãos deles, sobretudo, colocar fim a essa calamidade.