
Lembras-te?
Sydney Smith
Fábula
Tradução de Susana Cardoso Ferreira
Sidney Smith continua a explorar temas profundos com um sentido de humanidade comovente (para alguns leitores adultos, pelo menos). Neste álbum ilustrado, revela um diálogo entre mãe e filho, quando recordam, deitados na cama, alguns episódios passados. A abrir, a imagem do rosto de ambos e o início da pergunta: “Lembras-te…”. Este quadro vai repetir-se a cada nova recordação que é invocada. Muda a expressão dos olhos e da boca, muda a direção do rosto de cada um, exatamente como quando se conversa na cama. As cores são escuras. A descrição dos momentos é apresentada em sequências de vinhetas que representam o que o texto enuncia. Um piquenique, a oferta da bicicleta, a noite de tempestade. O diálogo é marcado com tipografia de cores diferentes: azul para o discurso da criança e rosa para o da mãe.


A ilustração segue a mesma lógica, a partir do olhar de quem está no momento a falar. O leitor vê o que a personagem recorda com os seus olhos. Esta estrutura enriquece o sentido da narrativa: o leitor acede à recordação visual das personagens e ao que valorizaram naquele episódio, sejam as framboesas nas mãos juntas, os pais sentados na manta, a queda no monte de feno, o cheiro a petróleo ou os relâmpagos na tempestade. Em cada história, mudam os tons e as cores, o nível de definição dos elementos e a relação entre luz e sombra, criando-se ambientes que provocam sensações distintas. Destas recordações, mãe e filho passam para a mudança de casa, que se percebe envolver emoções mais complexas.


E a narrativa leva outra direção, distinta da evocação de memórias felizes como parte da relação cúmplice e afetiva de mãe e filho. Afinal, não se trata apenas de um ritual e sim de uma necessidade de esperança, num momento de grande mudança, de inevitável perda e de desconhecimento do novo contexto. Na nova casa, ao fundo da cama onde os dois conversam deitados, estão os objetos que atestam as recordações: o cesto do piquenique, a bicicleta, o candeeiro a petróleo, o urso de peluche (de todos o mais importante). A sua existência confere alguma estabilidade à mudança, à passagem do tempo e à incerteza do futuro. Sydney Smith volta a demonstrar porque é um dos autores distinguidos com o prémio Hans Christian Andersen. A capacidade que tem de narrar a realidade sem simplismos, moralismos, condescendência ou hipocrisia é rara, acrescentando-lhe um efeito de grande sinceridade emocional através das personagens que compõe. A pedra de toque é, a finalizar, a esperança. E a coragem.