Destaque Sara Figueiredo Costa 2 Janeiro 2026

Dois livros para guardar para o futuro

Entre as listas e as escolhas, 2025 trouxe dois livros que importa não perder de vista.

As listas de melhores do ano, as escolhas da crítica, os tops de vendas, tudo isso já ocupou o espaço habitual nas páginas impressas de jornais e revistas e no ecrã aparentemente infinito e omnipresente da internet. Se correr tudo bem, conseguiremos guardar alguns títulos de livros, um ou outro disco, este ou aquele filme, mas o tempo e a voragem com que todos os dias é preciso trazer mais novidades para alimentar a máquina acabarão por deixar tudo o resto no limbo. Não vamos, portanto, sugerir uma nova lista, nem apontar os melhores, os mais inesquecíveis ou os mais falados livros do ano que passou, mas vamos escolher dois livros, sim, a bem do futuro.

Com edição da Antígona, Ideias Para Adiar o Fim do Mundo e Futuro Ancestral chegaram às livrarias portuguesas na primeira metade do ano que passou, ambos com capas desenhadas por Jhon Douglas, artista brasileiro há muito radicado em Portugal. Já correu muita tinta depois disso e os escaparates, com a sua habitual rotatividade desenfreada, já expulsaram esses títulos para as prateleiras onde os livros só se vêem de lombada, acolhendo centenas de outras novidades nos meses seguintes. Recuperamo-los, pois, sublinhando-os entre os tantos livros que se publicaram em 2025.

Ailton Krenak é um activista do movimento indígena brasileiro. Nota relevante, é também o primeiro ameríndio eleito para a Academia Brasileira de Letras, dado que talvez pudesse ser chamado à colação no debate sobre lugares de fala, privilégio e racismo estrutural. Os seus livros quase nunca decorrem de um processo de escrita tal como o imaginamos, e que impomos à imaginação sempre que pensamos na tarefa de quem escreve, mas são resultado de intervenções proferidas em palestras, congressos, encontros, que alguém fixa  em texto. Este aspecto é relevante, na medida em que os dois livros – assim como outros do autor, ainda por publicar em Portugal – se lêem com esse efeito, como se escutássemos uma fala, e as marcas de oralidade, as interpelações e a espontaneidade são marcas estruturantes do texto.

Em Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, o autor coloca em oposição o modo de vida extractivista, que encara o planeta como um fornecedor infindável de recursos que esgotamos, acreditando que não pode ser de outra forma, e o pensamento e as práticas indígenas, que reconhecem uma relação de interdependência absoluta entre todos os elementos da Terra: «Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade. Enquanto isso – enquanto seu lobo não vem –, fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passámos a pensar que ele é uma coisa e nós outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza.» (p.15)

Futuro Ancestral retoma alguns destes tópicos, reflectindo profundamente sobre a nossa noção colectiva de tempo e propondo uma religação ao mundo natural, a partir de uma ligação que sempre foi regra também para os habitantes do Norte global, mas que parcialmente se perdeu, ou foi substituída, mantendo-se, ainda assim, nas práticas culturais e vivenciais de muitos povos de outras geografias. Nesses espaços e modos de vida que tantas vezes tomamos por exóticos,  pouco práticos, inadequados para o mundo contemporâneo, o conhecimento do passado e da ancestralidade que une os seres humanos independentemente do lugar onde nasceram é não apenas herança, mas sobretudo modo de viver (e, no momento drástico de boa parte do mundo, sobreviver).

Educação, liberdade, democracia, política e possibilidade de mudança são temas amplamente discutidos nestes livros, sempre de um modo que procura abrir o debate e criar espaços para a sua continuidade nos diferentes momentos, meios e contextos que possam receber estes textos. Os dois títulos lêem-se de modo independente, mas as linhas de diálogo que se estabelecem entre si são férteis e vale a pena persegui-las. Em Futuro Ancestral, lê-se: «O senso comum imagina que a democracia é algo que você veste e sai andando – não é. (…) É um desafio que uma sociedade determinada exercita como experiência quotidiana. Assim como a ideia de liberdade, de integridade de um povo, a democracia deve ser constantemente construída, ela não tem o dom de se instalar e e está sujeita a todo o tipo de ataque.» (p.64-5) Os últimos meses têm dado razão a esta leitura em diferentes geografias e um olhar sobre os cálculos dos últimos anos em torno dos recursos naturais gastos anualmente pelos seres humanos e a capacidade de regeneração desses mesmos recursos confirma que andamos há muitos anos a consumir o que ainda não existe. Se a este alerta se juntar a consciência profunda de que os recursos naturais e os modos de vida que os respeitam são imprescindíveis para qualquer ideia de futuro, não será preciso muito mais para fugir das listas e levar os livros de Ailton Krenak para o novo ano.

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